twitter

Traído o “Espírito de Assis”

Nunca mais violência, nunca mais guerra, nunca mais terrorismo”.

Foi este o grito do Papa S. João Paulo II no histórico encontro, de 1986, na cidade de S. Francisco de Assis, retomado e relançado pelo Papa Bento XVI, no dia 27 de outubro de 2011. Apelo reformulado pelo atual Papa emérito, 25 anos depois, com os representantes das religiões do mundo juntamente com personalidades não religiosas da cultura, empenhados na paz e justiça, quando voltaram a Assis. Estando longe de imaginar que no dia 24 de fevereiro de 2022, o mundo iria assistir a uma nova guerra na vigência do atual pontificado do Papa Francisco.

Karol Wojtyla, que naquela altura havia ido a Assis rezar pela paz com representantes das religiões do mundo tinha acabado de abrir – com o seu estilo próprio de profeta – um caminho para a paz. Um empenho assumido à luz do ‘espírito de Assis’ e dos seus valores – o acolhimento, a oração, o diálogo e a fraternidade – como testemunho da partilha de uma peregrinação de verdade e de paz, cada vez mais urgente, segundo ele, e decisiva na sociedade atual. Pena foi que, nessa altura, os média laicos não lhe tivessem dispensado a devida atenção.

Esforço esse, agora desprezado por seres humanos em guerra junto á Polónia Natal de S. João Paulo II e à sua amada Virgem Nossa Senhora de Czestochowa, hoje porto de abrigo a milhares de refugiados da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Conflito, em cujos cidadãos ucranianos se vêm espezinhados, feridos, escorraçados e mortos pelo poderio militar russo. Contando, sobretudo, com a solidariedade de algumas nações vizinhas, bem como dos Estados Unidos da América, seus aliados europeus e de outros países. Porém, impotentes perante tantas atrocidades e destruição de cidades e povoações que, depois da guerra terminar, não só levarão décadas a refazerem-se, como a sua reconstrução custará uma enorme fortuna.

Foi perante este cenário de horror que Jorge Mário Bergoglio, representante de Cristo na terra e sucessor do Apóstolo Pedro veio lançar um apelo à Comunidade Internacional (CI) para ‘que se comprometa com o fim da guerra. Classificando-a de repugnante e um massacre sem sentido. Uma agressão violenta contra a Ucrânia. Um massacre em que as atrocidades se repetem todos os dias, sem que haja justificação para isso’. Pedindo aos atores da CI que se comprometam a pôr fim a esta hedionda guerra.

De lamentar é que a Igreja Ortodoxa, cujos seus representantes haviam ido a Assis formular a paz, juntamente com os da Católica, se encontre dividida neste conflito. E que o seu líder máximo russo, de Moscovo, o patriarca Cirilo I, tenha “traído” o compromisso do ‘espirito Assis’, declarando-se a favor de Vladimir Putin e da invasão russa ao território ucraniano; da matança de crianças, mulheres e homens – seus legítimos cidadãos, muitos deles praticantes ortodoxos – e da destruição de todos os seus bens, não deixando pedra sobre pedra.

De condenar é, também, o aparecimento em Portugal de imagens e slogans de apoio á invasão da Ucrânia com incitamento ao ódio e à violência e de afronta aos ucranianos refugiados no nosso país. Aliás, como sucedeu em Évora, no Alentejo, região de pendor comunista. Esperando que se trate apenas de uma minoria e de um fogacho ideológico de saudosistas do antigo Império Soviético de onde recebiam, outrora, apoio às suas investidas pró-comunistas em território nacional.

Quando a imagem da Virgem de Fátima chegou a território ucraniano pude ver, através das imagens da TV, os rostos de muitos fiéis iluminados de esperança na paz. Pois sabem bem que a mensagem de Maria aos Pastorinhos se prendia, sobretudo, com a postura da Rússia perante o resto do mundo. E se dúvidas havia elas, agora, dissiparam-se perante a imposição do poderio russo, em plena época quaresmal, a um país militarmente mais débil, de parco poder bélico e económico, impedindo-o de ser independente, escolher e construir livremente, em paz e sossego, o seu destino.


Autor: Narciso Mendes
DM

DM

28 março 2022