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Trabalhos para casa (TPC) ou “Tortura para crianças”?

1.Há dias, uma jovem mãe lamentava-se dos trabalhos que a professora do seu filho, de 6 anos, tinha mandado para fazer em casa: já ia para a cama, quando se lembrou que não tinha feito os trabalhos de casa e tinha medo de chegar à escola sem os ter feito... Ensonado e meio a chorar, lá foi fazer (fazer ele ou a mãe?) os trabalhos de casa antes de ir para a cama. Se já estava ensonado, das duas uma: ou conseguiu despertar (e assim prejudicou a noite de sono, atrasando o ciclo de adormecer), ou mal sabia o que estava a fazer e então era a mãe que lhe dizia o que devia fazer. A mãe tinha razão: não é com práticas destas que as crianças vão gostar mais de aprender nem aprender melhor… Só servem para criar aversão à escola. Para além do mais, constituem uma violação do direito da criança ter tempo de descansar e brincar após a escola, um direito tão real como os dos adultos. Imagine-se que as empresas passavam a mandar trabalho para os empregados fazerem, em casa, depois do seu horário laboral e tinham que o apresentar feito no outro dia. Alguém podia achar isto justo? E os direitos das crianças não são reais só porque são crianças? É que elas trabalham, no mínimo, 6 horas na escola. Depois do horário da escola também precisam de descansar, de brincar, de jogar... Há hábitos que passaram consuetudinariamente a funcionar como lei sem que ninguém se pergunte se a sua continuação faz hoje sentido. A este propósito, deixe-me contar-lhe esta história cheia de sabedoria:Um dia, a mãe ralhou com o filho por ele fazer determinada coisa que ela não gostou e ameaçou que lhe batia se ele voltasse a fazê-lo. O miúdo, muito sério, olhou para ela e perguntou: – Ó mãe, a tua mãe também te batia? – Batia, pois… – E a mãe dela também lhe batia? – Claro que batia… – E não achas que já é tempo de acabar com este hábito de bater nos filhos? A mãe ouviu e retirou-se sem dizer mais nada… 2. Já agora, permitam-me que, como o miúdo da história, pergunte o seguinte: não acham que já é tempo de acabar com esta imposição dos trabalhos de casa (os malfadados TPC, que alguém chamou tortura para crianças), que se tornaram uma “instituição pedagógica” para facilitar a vida aos professores? É por isso que fiquei contente quando, por altura do Natal, li a notícia de que o Governo da Região Autónoma de Valência, na Espanha, decidiu acabar com os TPC. Dizia a notícia que as “actividades escolares dos alunos dos 6 aos 16 anos devem ser feitas dentro do tempo da actividade escolar, porque eles são cidadãos a tempo inteiro e têm direito a ter tempo livre para brincar, jogar e descansar. Essa lei entrou lá em vigor no dia de Natal. 3. Bem vistas as coisas, esta medida para que os trabalhos pessoais sejam feitos na escola, dentro do horário lectivo, até é positiva, porque assim podem ter apoio da professora para esclarecer dúvidas, ao passo que em casa teriam de ir perguntar à mãe, que nem sempre terá informação bastante para os esclarecer e sempre lhe falta preparação pedagógica para o fazer. Que vantagem há, então, em fazerem os trabalhos pessoais em casa? Nenhuma. Primeiro, porque não é por ser em casa que aprendem melhor; depois, porque as mães, mesmo que saibam a matéria, podem seguir métodos de explicação diferentes e isso acabar por lhes trazer mais confusão do que certeza, já para não dizer ensinarem erros… o que toda a gente sabe que é verdade. Sendo assim, porque é que continua o costume dos TPC? – Para a escola ganhar poder sobre a família dos alunos? Essa obsessão de poder sobre a família do aluno é real; já a ouvi muitas vezes da boca de docentes… Mas, é uma razão enviesada, porque a aprendizagem não funciona por medo (de os acusar à mãe), mas por motivação. Ora, se a escola não sabe motivar a aprender, então sabe o quê? – Para criar hábitos de trabalho pessoal? Mas, só há três modos de criar hábitos de trabalho pessoal: a acção motivada, o estímulo da interacção com os colegas e o desenvolvimento pessoal. É preciso, portanto, acabar com a relação inquinada da família ao serviço da escola… A escola nunca se deve intrometer no lugar da família, mas apenas colaborar com a família. Uma coisa é a escola e outra distinta e necessária para o desenvolvimento da criança é a família. Pode haver um aproveitamento comercial que favorece a existência dos TPC: quando se vendem os livros de texto, vendem-se logo os cadernos de exercícios. Ora, é preciso dizer que esses cadernos são úteis, mas não se deve adulterar o seu uso. Podem ser usados na escola e em casa, se o aluno livremente quiser. Deve-se é melhorar a relação pedagógica e a interacção com os colegas durante o tempo lectivo como estímulo para fazer trabalhos pessoais. Aprender deve ser um acto gosto e de liberdade. PS: Acabo de saber que já corre, na internet, um abaixo-assinado a pedir para se acabar com os TPC.
Autor: M. Ribeiro Fernandes
DM

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27 janeiro 2019