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Topónimos e toponímias

1 – Parece que, recentemente, houve grande alvoroço lá para as bandas de Lisboa porque a respectiva Câmara Municipal resolveu «crismar» o conhecido Campo das Cebolas, apelidando-o agora de Largo José Saramago.

Alfacinhas houve que gostaram e alfacinhas houve que detestaram. A maioria – como é costume nestes casos – ficou calada, ou melhor, abúlica.

2 – Fosse este um episódio exclusivamente lisboeta, isto é, geograficamente localizado e culturalmente datado e eu não o traria aqui.

Mas acontece que este é um fenómeno que alastra pelo país inteiro: dar nomes novos a locais de toponímia velha consuetudinariamente consagrada. O que me parece um erro e um atentado à cultura local (a que, aliás, as populações geralmente resistem usando os topónimos tradicionais). Por duas razões que passo a explicar.

3 – Se uma autarquia pretende homenagear uma figura local ou mesmo nacional através da toponímia, não lhe deverão faltar espaços novos a que dar o nome que pretende homenagear. E se faltam – não deveriam faltar, repito. Porque o que é novo significa dinamismo, inovação, progresso, avanço – e isso, sim, é que é adequado à homenagem que se pretende prestar.

Dar um nome novo a um sítio antigo é fraca homenagem, filha de pobre imaginação. Além do mais, é uma ofensa ao nome que já lá estava, mesmo que não fosse de um cidadão ilustre mas, tão simplesmente, um nome popular consagrado pela cultura local – que, assim, é menosprezada num tempo em que tanto se fala de cultura.

4 – A segunda razão é que o nome novo raramente é mais interessante do que o antigo.

O melhor exemplo que disto conheço está na cidade de Évora onde as placas toponímicas têm, por baixo do nome novo, o nome antigo. E este é, na maioria dos casos, mais sugestivo, mais castiço, mais ligado à história da terra. E, por isso, mais bonito.

5 – Termino a lamentação por esta epidemia toponímica nacional com versos do grande poeta brasileiro Manuel Bandeira (Evocação do Recife):

«Rua da União…

Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância.

Rua do Sol

(Tenho medo que hoje se chame do dr. Fulano de Tal).

Atrás da casa ficava a Rua da Saudade… onde se ia fumar escondido.

Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora… onde se ia pescar escondido».

(…)

Nota: por decisão do autor este texto não segue o impropriamente chamado acordo ortográfico.


Autor: M. Moura Pacheco
DM

DM

18 janeiro 2019