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Tempos paradoxais os que vivemos

Um dos mais estapafúrdios dos paradoxos que atravessamos é, por exemplo, trabalharmos sem tempo para viver ou tentarmos sobreviver sem trabalho, isto é, desempregados; e realidade paradoxal persegue-nos, umas vezes mais acentuadamente, outras menos, ao longo da nossa História.

Da minha infância já longínqua recordo a fila de pedintes andrajosos e submissos que se ia sucedendo às quartas-feiras, à porta da cozinha da casa onde vivíamos; e quer suplicando uma malguinha de sopa, quer um naco de broa ou meia dúzia de batatas para um caldinho, este quadro iniciava-se ao alvor da aurora e terminava com o cair da tarde.

Muitos deles eram no poema de Guerra Junqueiro e cito de cor: pobres dos pobres são pobrezinhos/ Almas sem lares, aves sem ninho./ Vão pelas estradas, pelas aldeias/ em grandes bandos, em alcateias; e sem trabalho, incapazes ou incapacitados para o conseguir e com uma prole de filhos para cuidar (vestuário, alimentação, educação) tinham na solidariedade alheia o primeiro socorro que o Estado não garantia.

Eram tempos duros, difíceis, durante e após a II Guerra Mundial que se prolongaram no tempo; e os governos de então não possuíam meios económicos e sociais para enfrentar a situação e acudir às famílias flageladas pelo desemprego, a doença e a fome.

Hoje, não vivemos felizmente tempos constantes de guerras entre povos e nações, muito menos mundiais que consigo arrastam sempre enormes prejuízos sócio económicos, dramas humanos, muita miséria e fome; mas, não escapamos a frequentes convulsões, crises e atos de domínio dos mais poderosos sobre os mais fracos, como está a acontecer com a invasão da Ucrânia -pela Rússia sob a batuta do ditador e criminoso Putin, cuja cabeça encarna a mefistofélica intenção de reunificar de novo a União Soviética, dominado pelos desígnios macabros de Pedro, o Grande.

Mas, mesmo livres de permanentes e sórdidos conflitos entre povos e nações, somos atingidos por guerras biológicas, como a da recente e não extinta Covid-19 que consigo acarretam o medo, a falta de liberdade, um número arrasador de mortos; e, consequentemente, trazem a milhões de famílias de todo o mundo o flagelo do desemprego e da falta de futuro para os seus filhos.

Segundo relatório recente da União Europeia, o desemprego causado por esta pandemia cifra-se já em cerca de seis milhões de trabalhadores dos quais grande maioria simplesmente procura emprego ou está fora do mercado de trabalho; e, segundo o nosso Instituto de Emprego e Formação Profissional, os desempregados inscritos nos Centros de Emprego subiu cerca de 30% nos primeiros tempos da pandemia; e, assim, se analisarmos a situação dos nossos jovens, a inscrição nos Centros de Emprego teve uma subida de cerca de 46%, sem contarmos com a emigração a que têm sido obrigados.

Depois, para além destas realidades, não podemos esquecer a redução das horas de trabalho, a precariedade do emprego, o fecho de milhares de empresas; e tudo isto fruto das consequências dos confinamentos, do fecho de lojas, de escolas, cafés, ginásios e discotecas, do teletrabalho, da redução do número de utentes de bens e serviços, das restrições nas viagens de turismo e negócios, do encerramento de fronteiras e aeroportos que a Covid-19 exigiu.

Enfim, não sendo uma guerra convencional de homens contra homens, de nações contra nações, esta guerra que vivemos é do homem contra a mãe-natureza que sempre ao longo dos tempos e dos séculos teve o seu tempo e momento de conflitualidade e de consequências desastrosas; e que no homem sempre tem a causa e a culpa do desequilíbrio e agressividade ambiental e ecológica de que resultam estes conflitos com consequências humanas, económicas e sociais de dimensões assustadoras.

Agora, regressando ao paradoxo de trabalharmos sem tempo para viver ou tentarmos sobreviver sem trabalho, uma dúvida nos deve inquietar e admoestar: será que quanto mais evoluímos e crescemos em ciência, cultura, tecnologia e liberdade menos capazes somos de pôr fim às desigualdades, às injustiças, à miséria e à fome?

Então, até de hoje a oito.


Autor: Dinis Salgado
DM

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9 março 2022