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Sonhar ainda não paga impostos

Se o meu amigo leitor é dos que já sonharam, um dia, integrar uma excursão a Marte ou a outro planeta qualquer, tire daí o sentido, porque não será para os tempos mais próximos; é que, apesar dos constantes avanços tecnológicos, insondáveis ainda são cada vez mais os segredos do universo, vário e profundo. Todavia, estou a imaginar a emoção que, à boa maneira lusitana, havia de experimentar o grupo excursionista, à hora da partida: garrafão em punho, cesta de bolinhas de bacalhau, iscas de fígado e coxas de frango ao lado e, sem dúvida, uma bandeira ou cachecol do clube do coração; e chegados ao aeródromo de Palmeira, bilhete de ida e volta comprado, sem dúvida mais barato, era só voar, voar, voar; e num impulso fantástico de passarão alado pelos ares fora, lavados e azuis, rasgando horizontes ignotos. Pois bem, tudo seria linear e prático se isso não passasse de uma excursãozeca de fim-de-semana prolongado, das que se fazem às terras do Prestes João, ao derrubado muro de Berlim ou às pátrias da perestroika; e que vão fazendo as delícias de qualquer grupo de reformados portugas, financeiramente mais rechonchudos, em busca de novas emoções e aventuras; e, sobretudo, para fugirem à pasmaceira e pacovice nacional. Só que uma viagem de ida e volta a Marte demora, no mínimo, quase dois anos, tudo em função dos meios, no momento ao dispor, dos excursionistas e, claro, para além das passeatas que, uma vez chegados a terra firme, se quisessem empreender (não esquecer, porém, que a distância de planeta azul à Terra varia, conforme o astro está em oposição ou conjunção, entre 54 milhões de quilómetros e 101 milhões de quilómetros); ademais, com tanta demora, lá se ia o farnel e o garrafão da pinga, resultando a aventura numa enorme larica e sensaboria. Depois, o pior de tudo ainda seriam os problemas que se levantam com a síndrome de adaptação ao espaço, definida no dicionário de especialidades espaciais, como a doença do astronauta que num qualquer português, menos dos mais habituados às reviravoltas políticas, futebolísticas e inflacionistas, conseguiria aguentar; e que, naturalmente, lhe transformaria a passeata num verdadeiro pesadelo. Refiro-me obviamente à deslocação no espaço aos saltinhos, de pernas para o ar, aos trambolhões, mesmo sem ter escorripichado o tal garrafão de tintol; e, pior ainda seria suportar a solidão e o vazio imensos e a mudez, alheia, portanto, a palavrões, discussões e amofinações, tão ao gosto e jeito lusitanos, sobretudo às segundas-feiras ou em épocas eleitorais, que haveria de reinar no supositório de lata, voando pelos espaços sem fim; e, então, qual não seria o sofrimento, quando, num aperto intestinal, onde, quando e como o pobre portuga e infeliz poderia encontrar o merecido e secreto lugar para o desejado e urgente alívio. Todavia, vale sempre a pena continuar a sonhar, porque, no fundo, já no dizer do poeta, o sonho comanda a vida e com todos estes constrangimentos siderais, sempre valia a pena deixarmos, por esse tempo todo de ser terráqueos num planeta poluído, materializado, consumista e infeliz; e porque não, pôr de lado as relações de proximidade e, por vezes nem sempre de mutualidade, com o patrão, o senhorio, o vizinho do lado, o polícia de giro, o inspetor de finanças, o político da praça... para sermos marcianos; sobretudo, viajantes e locatários de um mundo novo de mais limpeza, liberdade, igualdade e fraternidade. Sonhemos, pois, amigo leitor, que o sonho ainda não paga impostos, mas não estamos livres que tal não venha a acontecer, dada a tamanha rapacidade governativa; e, afinal, ainda é uma das coisas boas e tonificantes que temos na vida e pode, de um momento para o outro, fazer de nós heróis de uma qualquer odisseia sideral ou marítima ao jeito de Gamas e Cabrais. Assim, a modos que turistas de garrafão, bolinhos de bacalhau, iscas de fígado e frango de churrasco ou febras de porco na brasa com bilhete de ida e volta na tal excursão ao planeta Vermelho; ou, tão-só, mareantes no regresso às Áfricas comandados, agora, não pelo Infante de Sagres, mas pelo nóvel Presidente dos Afetos, o monarca de Belém. Então, até de hoje a oito.
Autor: Dinis Salgado
DM

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16 janeiro 2019