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Só na glória é que somos iguais

O Governo tem estado de férias, melhor, foi de férias com o primeiro-ministro. Acontece assim quando o Governo é unipessoal e o que temos, como os dois anteriores, é e foram semelhantes no que respeita à tomada de decisões. Dos maiores que o país teve, mesmo assim, reduziram drasticamente a sua actividade nos períodos de ausência do chefe do Executivo, apesar das delegações de competências nos vários ministros. À hora que escrevo, António Costa ainda não regressou a São Bento e a imagem que passa nos ciclos de notícias é de que o país está à espera das medidas que foram anunciadas que seriam tomadas. É verdade que desde o início se disse que se saberiam só em Setembro, o que já na altura se criticou pelo inusitado que foi anunciar para depois de férias decisões que eram prementes, contudo, face ao agravamento da situação, outra deveria ter sido a postura do Executivo. A oposição já tinha avisado o Governo, logo após a formulação do anúncio das medidas, de que aquele estava a ser calaceiro ao adiar para mais tarde trabalho urgente. A verdade é que pouco ou nada o mesmo se importou e as consequências já estão aí. Há greves no horizonte, e pior, carências e mesmo fome à vista. Bem sei que não foi o Executivo o causador da guerra nem da inflação, mas é a ele que compete, com oportunidade, acompanhar e controlar os seus efeitos para não deixar que as desigualdades e as injustiças sociais aconteçam. Infelizmente, essas têm-se vindo a evidenciar, com os mais desfavorecidos e os remediados, para só falar nestes, a sofrerem com a situação por inacção governativa. A calacice está a originar pobreza a cada dia que passa. A habilidade no discurso dos gabinetes de comunicação do Governo pode disfarçar muita coisa, mas não resolve nenhum problema dos portugueses. Nas últimas legislativas, os eleitores decidiram que Portugal deveria ter um governo de maioria absoluta, mas isso não se tem traduzido, pelo menos para já, em benefícios para os cidadãos. Pessoalmente, tenho muitas dúvidas de que alguma vez essa oportunidade venha a ser proveitosa para o país e para os portugueses, antes pelo contrário.

Numa situação de crise, como a que atravessamos, há quem se aproveite dela, como tem sido o caso das empresas de energia e de produtos petrolíferos, embora na lista possam figurar várias de outras actividades. Com os olhos no lucro, muitos espreitam a oportunidade de espetar a unha, sem olhar a meios e sem se comoverem com a desgraça de tantos. É aqui que um Governo devia estar atento e activo. O nosso tem estado de férias e nem a gravidade dos problemas foi suficiente para que tenha antecipado o regresso ao trabalho e a tomada de decisões em tempo útil. O calendário mantém-se e os protagonistas têm estado calmos e serenos, a começar pelos mais responsáveis da hierarquia do Estado. Numa democracia, a justiça social não deve estar sujeita a calendários, mas por cá acontece que está. A propósito, escutei num comentário à liturgia do penúltimo domingo que “só na glória é que somos iguais”, o que, aplicado às coisas da vida em sociedade, se torna cada vez mais difícil quando os responsáveis de um país distendem no tempo um olhar cuidadoso e se atrasam nas suas decisões de evitar nós górdios às pessoas mais dependentes da conjuntura e mais desfavorecidas. Enquanto o banquete se faz só entre os que podem, estaremos distantes duma sociedade justa. Os últimos lugares continuam a ser para os mais desfavorecidos. A verdade é que quando se gere o que é de outros, a responsabilidade devia ser maior e exigir de cada responsável uma observação mais atenta, menos despreocupada, para que o bem-estar de todos estivesse permanentemente assegurado.

As férias servem para descansar, mas também para reflectir. Pode ser que António Costa regresse ao seu gabinete em São Bento de coração mais mole, humilde e sensível e tome, mais depressa do que o previsto, as medidas de que o país espera e precisa, e em particular, as que podem salvar os portugueses dos últimos lugares da fila de acesso ao bem-estar social.


Autor: Luís Martins
DM

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30 agosto 2022