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A proximidade do poder em relação ao povo não é de agora. Tal proximidade já existia outrora. Talvez não fosse uma proximidade (vistosamente) afectiva. Mas é possível que até fosse bem mais efectiva.
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Muito antes da «presidência aberta», houve quem praticamente renunciasse a ter morada certa. Nos séculos XII e XIII, o rei D. Sancho quase não parou na capital, que era Coimbra.
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Acresce que ele não se limitava a passar pelas populações; residia no meio delas. Rezam as crónicas que – de cidade em cidade – alternava continuamente de residência.
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O ano de 1191 ficou particularmente gravado. Porque naquela época o clima já registava fenómenos extremos, foram enormes os estragos provocados por chuvas devastadoras e por um calor insuportável.
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Primeiro, vieram as inundações; depois, chegou a seca com os incêndios. Finalmente, não faltaram sismos nem tsunamis.Como os solos deixaram de produzir, a fome – juntamente com a peste – não se cansou de matar. Nessa altura, El-Rei andou por todo o lado, prestando assistência e levando ajuda.
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Para qualificar o território, concedeu numerosas cartas de foral, criando muitos concelhos.E, para atrair habitantes, ofereceu um conjunto de estímulos que denotam uma espantosa visão e um excepcional arrojo.
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Tais estímulos priorizavam três eixos principais: incentivos patrimoniais, alívio fiscal e tolerância social.E é assim que, entre as medidas tomadas, encontramos a cedência de terras, a isenção de impostos e até a amnistia para determinados crimes.
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Foi este programa visionário, de longo alcance, que trouxe gente para o interior.Daí que D. Sancho tenha (amplamente) merecido o cognome de «povoador». Para ele, não bastava encher o país de terras; era vital que as terras do país estivessem cheias de gente.
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Naqueles tempos fazia-se o contrário do que se tem feito nestes (últimos) tempos. Percebia-se que fixar pessoas no interior implica descomplicar – em vez de sobrecarregar – a sua vida no interior.Para tal, o caminho tem de ser: criar trabalho e aumentar o rendimento.
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D. Sancho viu o que todos vêem, mas fez o que poucos fazem. Ele reparou que as pessoas só mudam de lugar quando sentem que a sua vida pode melhorar. Em conformidade, convenceu-as de que no interior poderiam pagar menos e ganhar mais.Será preciso um novo D. Sancho para compreender que um país é mais que uma paisagem para turista ver? E muito mais que um matagal para no Verão arder?
Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira