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Será possível vencer este «(multi)caos»?

  1. Antes do princípio, «havia» o vazio, o abismo, as trevas (cf. Gén 1, 2).

A criação é precisamente a passagem da desordem à ordem, do caos ao cosmos.

2. Segundo a sabedoria rabínica — para a qual Deus intervém no mundo ao longo de quatro «grandes noites» —, a Sua intervenção na «noite da criação» consistiu precisamente em pôr ordem no caos.

Daí que Carlo Maria Martini sustente que criar «não implica apenas que Deus faz existir algo, mas que Ele vence o caos e quer a ordem, a harmonia e a paz».

  1. Assim sendo, cosmos não significa unicamente mundo, mas mundo em ordem, com limpidez e concórdia.

Aliás, não é em vão que o contrário de mundo é imundo. Ou seja, um mundo sujo, desordenado, caótico.

  1. Depreende-se, pois, que o mundo só cresce com o triunfo da ordem sobre a desordem; isto é, com a vitória do cosmos sobre o caos.

E, consequentemente, a vida no mundo fica em perigo com os atropelos da desordem contra a ordem e com as ameaças do caos contra o cosmos.

  1. Mas não é isso o que mais tem vindo a acontecer? Quem tem sido o maior agressor do mundo? Quem nele mais tem introduzido a desordem e a desarmonia?

Afinal, a pandemia está a mostrar que o homem também pode ser um «vírus» para o mundo.

  1. Como adverte o teólogo — e antropólogo — Javier Melloni, o «vírus [SARS-CoV-2] transporta uma espécie de mensagem da Terra: ou mudam ou vou comportar-me convosco como vós vos comportais comigo».

«Serei — acrescenta — como esses pequenos seres que destroem o organismo que os nutre».

  1. E o certo é que nós vamos destruindo a Terra — e a humanidade que sobrevive nela — com os «vírus» da guerra, da inflação sem freio, da fome galopante.

É esta a prometida — e tragicamente irónica — Nova Ordem Mundial? O que se vê é uma Ordem feita de Desordem, uma espécie de regresso ao caos pré-inicial.

  1. São tantos os factores de desordem que mais do que «caótica», estamos imersos — para usar a expressão de Pier Giorgio Liverani — numa «sociedade multicaótica».

Curiosamente, Gore Vidal não reconhece que a história da humanidade tenha uma Ordem. Pelo contrário, a nossa história é caótica, em fases que se vão repetindo.

  1. O ensaísta, falecido há uma década, detecta uma «fase teocrática», uma «fase aristocrática» e uma «fase democrática».

Tendendo esta a ceder ao caos, faz emergir a nostalgia de uma divindade, o que nos faz voltar ao início do ciclo.

  1. O que abastarda a «era democrática» — e a concomitante eclosão do caos — é o sufoco do individualismo.

O predomínio das «forças centrípetas» sobre as «centrífugas» entrava a emergência de uma consciência planetária, empática, altruísta. Ainda iremos a tempo de vencer este «(multi)caos» que nos tortura»?

Destaque

Certo é que nós vamos destruindo a Terra — e a humanidade que sobrevive nela — com os «vírus» da guerra, da inflação sem freio, da fome galopante. É esta a prometida — e tragicamente irónica — Nova Ordem Mundial?


Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira
DM

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9 agosto 2022