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Ser e temer

Tudo está relacionado com o Ser e o Ser está relacionado com tudo.

Sucede que a história coloca tais relações umas vezes em sentido analógico e outras vezes em sentido dialéctico.

Uma das mais antigas foi estabelecida com o Devir, estando Parménides associado ao Ser e Heraclito ao Devir.

No fundo, trata-se de uma discussão entre uma concepção mais estática e outra mais dinâmica do Ser.

Tal discussão entronca, porventura, naqueloutra que alguns mestres procuram dissecar: entre o Ser e o Fazer.

O Ser – como sublinhou São João Paulo II – está acima do Fazer, sem que o Fazer esteja muito abaixo do Ser. Afinal, Ser também é Fazer. Como bem percebeu o Padre António Vieira, «somos o que fazemos». Se não fazemos, que somos? É no que fazemos que mostramos o que somos.

O Ser identifica e o Fazer realiza. O Fazer é a realização do Ser. E o Ser é a identificação do Fazer.

É pelo Fazer que o Ser se realiza. E é no Ser que o Fazer se identifica.

A relação mais antinómica que envolve o Ser é, porventura, aquela em que é defrontada pelo Ter. Não falta quem assegure que quem é rico de Ter acaba por se tornar vazio de Ser.

O problema está quando o Ter subjuga o Ser. O importante é que o Ser ilumine e conduza o Ter. O que temos deve estar ao serviço de todos, para que todos possam Ser em condições dignas, humanas.

Eis o que falta, eis o que urge. A vertigem voluptuosa pelo Ter chega a despontar como patológica.

Não escasseia quem se resigne a Ter, sem nunca se mostrar saciado. Só que esse Ter em demasia nem aos próprios dá espaço para Ser com alegria.

É preciso perceber que Ser é essencialmente coexistir e, por conseguinte, repartir. Há, no entanto, quem se limite a Ter, presumindo que, deste modo, se impõe como Ser.

Pura ilusão, em que a liberdade não passa de servidão.

Sucede que, nos tempos que correm, começa a fluir uma antinomia entre Ser e Temer.

A situação que estamos a viver determina que a atitude dominante de muitos seres seja Temer.

Como não temer um vírus tão manhoso e tão letal? Como não temer as implicações que tal vírus está a ter na saúde, na economia e em toda a convivência?

Parece que deixamos de ser quem éramos. O Temer está a tolher, a bloquear.

Não podemos desguarnecer o cuidado, mas não devemos esmagar-nos pelo temor.

O Ser alimenta-se da Esperança. Aquele que venceu a morte tornar-nos-á vencedores das ameaças de todos os vírus!


Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira
DM

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11 agosto 2020