Fui caminheiro, no Clã 8 do Seminário Conciliar de Braga, e sou assistente espiritual do Agrupamento 16 (Prado Santa Maria). Nem será necessário dizer que o escutismo me diz muito, até porque muito lhe devo. Quando o vejo na ribalta, pelos melhores motivos, fico feliz. E foi o que aconteceu, nos últimos dias!
Primeiro, a notícia de que a Organização Mundial do Movimento Escutista e a Associação Mundial de Guias estão nomeados para o Prémio Nobel da Paz 2021, em virtude do seu contributo global para a paz e o diálogo. A indicação foi feita por Solveig Schytz, ex-chefe das Guias da Noruega e atual membro do Partido da Liberdade norueguês, que assim se exprime: “O Movimento Escutista tem como objetivo dar aos jovens as ferramentas de que precisam para resolver os desafios do futuro, enquanto constrói uma sociedade civil forte. Este trabalho é vital para a paz mundial. Assim sendo, e uma vez que os eventos relacionados com o escutismo são pilares de colaboração intercultural e construção da paz, faz todo o sentido esta nomeação”.
Na apreciação a esta notícia, o chefe do Corpo Nacional de Escutas (CNE), Ivo Faria, diz que tal “expressa o reconhecimento de um caminho feito. Se calhar, mais até do que se ganhar o Nobel, achamos que é um reconhecimento justo por um trabalho mais do que centenário em prol da juventude e da sociedade do mundo inteiro”. Acrescenta que a nomeação traz ao escutismo “uma maior responsabilidade, no sentido de chegar a cada vez mais crianças e jovens”.
Depois disso, aconteceu a celebração do Dia do Fundador, Robert Baden-Powell, assinalando a data do seu nascimento: 22 de fevereiro de 1857, em Londres. Fundou o escutismo em 1907, na ilha de Brownsea, ao sul de Inglaterra e, das suas muitas qualidades, destaca-se a “capacidade de pensar à frente e de experimentar” (João Armando Gonçalves).
Por último, a notícia recente de que o CNE foi distinguido pelo Parlamento Europeu com o “Prémio de Cidadão Europeu 2020”, destacando o trabalho da associação ao nível da educação dos jovens para a cidadania ativa e para o desenvolvimento de competências.
Presente em quase todos os países do mundo, o escutismo não distingue religiões, formas de estar, regimes políticos e torna os seus membros irmãos uns dos outros, prosseguindo os mesmos ideais. Conta atualmente com cerca de 50 milhões de efetivos, mas são exponencialmente muitos mais os que, ao longo de mais de cem anos, aí encontraram um espaço de descoberta, crescimento, convivência e serviço.
O seu método consiste numa “auto-educação progressiva”, baseada em sete pilares fundamentais: Lei e Promessa, patrulhas, progresso, relação educativa, mística e simbologia, vida na natureza, aprender fazendo. Na versão mais habitual, organiza-se em quatro secções, de acordo com as idades: alcateia (lobitos), expedição (exploradores), comunidade (pioneiros) e clã (caminheiros). Tem como padroeiro São Nuno de Santa Maria.
O movimento escutista está presente entre nós através da Associação de Guias de Portugal e da Federação Escutista de Portugal. Esta engloba a Associação dos Escoteiros de Portugal (AEP), fundada em 1913; e o Corpo Nacional de Escutas (CNE), fundado em 1923, em Braga, por D. Manuel Vieira de Matos e pelo Dr. Avelino Gonçalves. Tendo conhecido o escutismo em Roma, resolveram fundá-lo em Braga, na Paróquia da Sé, razão que faz do seu Agrupamento o mais antigo de Portugal.
Instituição de Utilidade Pública, desde 1983, o CNE é a maior associação portuguesa de juventude: 73 mil membros e 14 mil voluntários, distribuídos por mais de 1030 Agrupamentos.
As notícias que evidenciam os méritos do escutismo não podem, contudo, inebriar-nos, como que adormecendo nos festejos. São, antes, um apelo ao movimento escutista, no sentido de continuar a ser para os mais novos e a sociedade em geral um despertador de consciências e um fator de transformação, como sugere o seu lema: Sempre alerta para servir!
*Professor na Faculdade de Teologia – Braga e Pároco de Prado (Santa Maria)
Autor: P. João Alberto Correia