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Semana santa – das igrejas vazias ao (possível) vazio da Igreja?

De muitas e variadas formas se tem procurado interpretar o significado mais profundo do esvaziamento das igrejas (templos e comunidades), particularmente neste tempo de pandemia… antes, durante e depois. Há estudos e inquietações – o recente livro de Tomás Halík, ‘O tempo das igrejas vazias’ é um expoente – à mistura com conjeturas e insinuações. Dependendo da perspetiva de análise poderemos encontrar leituras, propostas e até catalogações nas respostas que nos possam convir, deixando a ideia de que teremos uma solução sem enfrentarmos o verdadeiro problema.

De que adianta tentar encontrar culpados no esvaziamento da cristandade? Não faremos todos, parte do problema? Por que acusar, se estamos também na linha de mira dos acusadores? Os mais velhos serão mais culpados? E os mais novos não contribuíram para o seu desânimo? Certas teses inflamadas serão exequíveis ou somente servem para cocegar os cotovelos em estudo? Escorraçadas as pessoas ainda haverá rituais?

Por ocasião da ocorrência do segundo centenário da abolição a inquisição (31 de março de 1821), não andaremos em processos neo-inquisitoriais no interior da Igreja e mesmo na sociedade? Por quê acusar os outros, quando todos (de uma forma ou por outra razão) somos parte da debandada das nossas igrejas? Não parece ser mais fácil estar com o dedo acusatório do que batendo no peito em arrependimento?

Ora, nesta proximidade ao celebração do mistério pascal da paixão-morte-ressurreição do Senhor, veio-me à lembrança sugerir alguns passos nesta caminhada de passarmos da contínua aferição do ’eu’ ao ‘nós’ e na descoberta do ‘nós’ no ‘eu’.

1. Silêncio – antes de mais precisamos de fazer silêncio dentro e fora, pois a voz de Deus é de subtil comunicação nesta chinfrineira de sons, desafios ou superficialidades. Ter a coragem de se deixar confrontar nessa subtileza de mergulharmos no rio de água viva que nos percorre intensamente;

2. Escuta – desta nascerá a capacidade de perceber para onde vamos ou como não demos continuar, discernindo as múltiplas vozes e seduções. Mais do que falar é urgente saber ouvir, num exercício contínuo crescente e nunca acabado;

3. Tempo com qualidade – quando não queremos enfrentar-nos, engenhosamente, arranjamos desculpas e a falta de tempo é a mais recorrente. Ora, precisamos de ter tempo para nós mesmos, para Deus e para os outros, sem distrações nem falsas comunicações. A pressa é tantas vezes inimiga da qualidade e mesmo da eficiência;

4. Prioridade às pessoas – numa época de velocidade, onde os ‘gostos’ ou postes facebokianos contam mais do que as amizades de partilha, corremos o risco de nos iludirmos com as conquistas na nossa habilidade e não no amadurecimento sereno pelo estudo e na reflexão com as pessoas concretas e simples. Seremos capazes de desligar totalmente do telemóvel para estarmos só com as pessoas e para elas?

5. Querer aprender – pelo confronto sadio e sereno, pela partilha despretensiosa e humilde, pela sábia humildade de nada ensinar e com todos aprender, poderemos criar uma abertura à diferença, sabendo cada um quem é e respeitando o outro na sua identidade. Quando alguns pararam no tempo e acusam a Igreja de estar parada, teremos a coragem de convidar a virem ver como estamos, sem esconder o que somos?

6. Caminhar com os outros – agora que nos coartaram a possibilidade de termos gestos de afeição, torna-se ainda mais necessário saber ler no olhar e caminhar sem medo com os outros, mesmo os mascarados. Já não há mais distinção entre católicos e outros cristãos, mas entre crentes e descrentes, ateus ou indiferentes.

7. Falar com sinceridade – o pior que nos podia acontecer era descremos da palavra alheia, desconfiando uns dos outros ou acusando-nos mutuamente. Todos precisamos de crescer na obediência à Palavra de Deus, para que haja verdadeira conversão… de vida e para a vida.

Em resumo: pior do que constatar as igrejas vazias será percebermos o vazio da Igreja. De facto, a Igreja somos nós, tenhamos ou não a possibilidade de nos reunirmos presencialmente. Não deixemos que o vazio nos invada nem nos tornemos testemunhas de um Cristo sem rosto nem voz. Hoje somos a Sua presença, amando-nos e respeitando-nos, sem acusações nem lamúrias. O vazio não é de Deus…


Autor: António Sílvio Couto
DM

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29 março 2021