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Se está reformado tome nota

O povo na sua imensa sabedoria tem-nos, ao longo dos tempos, legado ditados, máximas e anexins que, resultantes de experiências e práticas de vida, são verdadeiras sentenças; e, mesmo assentes num cabal experimentalismo ou em evidência empírica, este legado, tendo vencido a poeira dos séculos, mantém a sua atualidade.

Quem não se lembra ou tem bem presente, por exemplo, ditados como: amigos, amigos, negócios à parte, quem não se sente não é filho de boa gente, devagar se vai ao longe, grão a grão enche a galinha o papo, quem muito dorme pouco aprende ou quem tem boca vai a Roma? Ora, analisando o seu conteúdo, qualquer destes ditados populares encerra um pensamento moral e adverte para uma prática de vida sentenciosa.

Pois bem, de entre milhares, há um ditado popular que me tem acompanhado ao longo dos tempos de reforma e me foi aconselhado por um bom Amigo, quando já nonagenário, e que reza assim: se quer durar muito e com saúde, tem de levar uma vida regrada que se consegue com pouca cama, pouco prato e muito sapato; então, analisando este dito sentencioso, a conclusão a que chegamos é óbvia: devemos dormir pouco, comer pouco e andar muito a pé.

E este meu Amigo que, efetivamente cumpria com rigor este preceito, gozou sempre de boa saúde e chegou à bonita idade de 96 anos sem grandes limitações ou danos físicos e mentais; e só para termos uma ideia da sua saúde e força anímica, este meu Amigo ia diariamente a pé da sua residência, em S. Vítor na cidade de Braga, até à casa de um seu amigo acamado que vivia junto à igreja da freguesia de Nogueiró para lhe ler o Diário do Minho, o nosso jornal, que ambos muito apreciavam.

Claro que esta sua prática de vida não pode ser totalmente responsável pela longevidade saudável deste reformado; mas, uma coisa é certa: não seria dono de tanta vitalidade e saúde se ignorasse o preceito em causa e se borrifasse para as limitações que ele impõe.

Ora, quando chegamos à reforma, após longos anos de trabalho, constrangimentos múltiplos e preocupações, sempre aspiramos a usufruir um tempo de tranquilidade, saúde e bem-estar; e se pensarmos que com ela sempre chega o momento de fazermos aquilo que desejamos fazer e nunca fizemos por falta de oportunidade ou tempo, ficando adiado à espera do desejado momento, em nós cresce a esperança de que agora é que vai ser.

Todavia, com a prática e conhecimento óbvio que já levo de duas décadas de vida de reformado, a uma conclusão depressa cheguei: apenas me reformei da minha profissão de professor, porque de tudo que para além disso vai e que a vida me proporciona e exige, não tenho podido abdicar; e, assim, nunca consegui arranjar tempo para fazer aquilo que, enquanto trabalhava, tanto desejava e precisava de fazer, ou seja tempo de que pudesse dispor só para mim, mesmo não exclusivamente.

E que inesperadas necessidades e urgências, como o acompanhamento dos netos, o apoio aos filhos e demais familiares, as doenças, as consequentes limitações de tempo ou o vagar com que já fazemos as coisas me limitam o dolce far niente que a reforma devia proporcionar; e, deste modo, muitos anseios ficam por realizar, muitas tarefas ficam por cumprir, muitos propósitos e sonhos se vão adiando para um amanhã cada vez mais distante e improvável.

Depois, se queremos um tempo de reforma agradável, variado, apetecível e não monótono, não podemos virar costas à atividade física, ao convívio com amigos e a uma alimentação regrada e saudável; e, muito menos, ao desejo e prática de nos vingarmos do tempo atribulado em que nos levantávamos cedo e por obrigação e corríamos para o emprego, depois de largarmos os filhos na escola, deixando, assim, de nos darmos ao gozo de muita cama ou muito sofá.

Agora, se o meu bom amigo já está reformado ou à porta da reforma e quer usufruir de um tempo saudável, agradável e longo, pondo de parte, obviamente, o alcance e sofrimento de uma fatalidade imprevista e indesejável, ocupe-se a fazer, por exemplo, bricolagem, voluntariado, jardinagem, a dar passeios com amigos ou vizinhos (mesmo que não os tenha, e procure fazê-los e conserve sempre os que já tem), a dar caminhadas ou a frequentar ginásios como forma de manter o físico e, muito importante, ocupando e exercitando a mente: lendo muito, fazendo charadas, palavras cruzadas ou sudokus; e, para além do mais, nunca se esqueça da boa prática de pouca cama, pouco prato e muito sapato.

E muito importante: não pratique a prática da preguiça e da ociosidade, passando horas ou adormecendo frente à televisão e, muito menos, a política do banco de jardim; até porque, estar no banco de jardim, olhando para o relógio ou para o nada à espera que chegue a hora do regresso a casa, é uma forma de monotonia e solidão que em nada ajuda a uma vida de reformado ativa, útil e agradável e, porque não, certamente mais longa.

Então, até de hoje a oito.


Autor: Dinis Salgado
DM

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8 fevereiro 2023