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Salvar do lítio, o norte do distrito da Guarda

  1. Parabéns a Viana, a Valença e à serra de Arga). A sua vigilância, teimosia e pressão sobre os organismos competentes (e o factor de se tratar de uma serra vizinha de regiões muito povoadas) terá contribuído para excluir a serra de Arga dos territórios susceptíveis de prospecção e exploração mineira relacionada com o lítio. Não pensem os minhotos contudo que, salva a serra de Arga, o problema da mineração lítio em Portugal ficou resolvido. Há outras áreas de igual (ou até superior) beleza, que em Portugal continuam ameaçadas. Já nem falo do caso (tão conhecido) de Montalegre, Boticas (e Covas do Barroso). Falo dos 6 “blocos” que continuam em cima da mesa da “esventração” mineira. E para alguns dos quais peço solidariedade.

  2. Penso que a mineração foi, para já, excluída do vasto distrito de Bragança). É, por certo, uma das regiões mais belas do país. E já foi (recentemente, no tempo de Sócrates), mutilada de sobra, sobretudo pela construção de duas barragens em rios de diminuto caudal, o Sabor e o Tua. Os quais eram verdadeiras joias da Natureza, grandiosa e intocada; percorrendo extensos e profundos vales encaixados; em certos sectores, com verdadeiros desfiladeiros, dos quais o novo “espelho de água” vem reduzir a imponência e a beleza primeva (e destruir parte da Biodiversidade). Com os planos para o lítio, ficaram ameaçadas várias áreas de grande beleza nos concelhos de Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Vinhais e do antigo concelho de Torre de D. Chama. Inicialmente eram, em Portugal 8 áreas de prospecção e exploração do lítio. Que julgo, terão passado a 6, ficando assim de fora o distrito de Bragança. Confrontar contudo, sobre o assunto, a edição do Mensageiro de Bragança de 6-1-2022 (pag. 24).

  3. A Agência Portuguesa do Ambiente). Ao que parece, é este organismo (“de mãos largas” e não muita exigência), que autoriza que as licenças “de prospecção” (às vezes tão destrutivas, veja-se o que se tem passado em Covas de Barroso) se transformem em verdadeiras e bem mais impactantes licenças “de exploração”. No ministério do Ambiente pontifica o hábil e super-persistente (quase “autista”) tio da cantora Capicua, o dr. João Pedro Matos Fernandes, homem com raízes naquelas famílias de Mogadouro que, no séc. XV, vieram “ainda de mais longe”. E cuja actual “religião” é a “transição energética” (o que quer que esta ideia tenha de substantivo e positivo…). E o secretário de Estado da Energia tem sido o audacioso João Galamba, um socratista que nunca virou a casaca.

  4. O valor natural e paisagístico do chamado “bloco de Massueime”). Aquilo que os técnicos baptizaram com este nome, é um vasto rectângulo que abrange boa parte dos concelhos de Meda, Pinhel, Figueira de Castelo Rodrigo, Trancoso e V. N. Foz Coa. Se dissessem p. ex. que se tratava do “bloco do Médio Coa”, ou “de qualquer dos mencionados concelhos”, as pessoas conhecedoras (noutros pontos do país) ficavam logo alertadas para a ameaça à preservação do valor daqueles territórios. Assim, chamando-lhe “de Massueime”, o povo incauto deve ficar a pensar que se situa nalgum lugar remoto da Argélia, Marrocos ou Guiné-Bissau. E, na realidade “Massueime” é o nome de uma longa ribeira de margens rocosas e abruptas, que separa os concelhos de Meda (a W) e de Pinhel. É um afluente do belíssimo rio Coa (que ali, corta a serra da Marofa em duas partes); junta-se ao Coa logo a sul dos famosos “sítios das gravuras de Foz-Coa”, património mundial que salvou este rio do concelho da Guarda, de impactante barragem que queriam fazer na sua foz, mais a norte. Além disso, poucos kms a leste, fica o extremo –sul do P. Natural do Douro Internacional, verdadeira jóia da própria Europa toda.

  5. Pinhel e Figueira de C. Rodrigo já recorreram). Figueira, ao que consta, protestou e ficou logo excluída da dita “zona de prospecção”. Pinhel não, e entrepôs logo uma bem justificada “providência cautelar”. Trata-se de toda uma região com agricultura muito rentável (sobretudo produção de vinhos, azeite, gado ovino e caprino, queijos, etc.). E com uma paisagem e biodiversidade notáveis, visto que é o prolongamento da Espanha norte- ocidental (parte dela, Reserva Mundial da Biosfera). E isto não é nenhum mito. É fácil avistar águias (ou até noitibós) naqueles concelhos. Numa das ocasiões que lá passei, acreditem, vi por duas vezes raposas, num mesmo dia de inverno.

  6. As muralhas de Trancoso, os velhos castelos de Marialva, Longroiva e Castelo Melhor). Tudo isto fica dentro ou perto do dito “bloco de Massueime” . Realmente, é melhor ir “cultivar” a desertificação e o envelhecimento e despovoamento rural, em sítios menos nobres. E até os há… Porém na Meda, Pinhel, Trancoso, Foz-Coa, F. Castelo Rodrigo ? Só mesmo se os dirigentes políticos em Lisboa e no Porto (eu sei que moram longe …) forem mesmo muito incultos. Como se não bastasse já, a depredação que desde 1974 têm sofrido as belas fragas de granito que povoavam aqueles ondulados planaltos, onde abundavam os sobreiros, castanheiros, pinheiros, carvalhos… e rebanhos.

  7. Dentro de anos, baterias de sódio?). Destroi-se a Natureza, agora, em busca de lítio (que aliás, é muito mais rentável e abundante em salinas e lagos salgados da América do Sul). Já se diz contudo, que o lítio em breve poderá ser obsoleto e substituido por compostos de sódio…


Autor: Eduardo Tomás Alves
DM

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8 março 2022