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Rui Rio (e o PSD) em “modo de pororoca”

  1. Origem e significado da palavra “pororoca”). A palavra foi copiada da antiga língua tupi-guarani, do Brasil (“pororoka”, significando “grande estrondo”; e refere-se a um fenómeno natural, que ocorre com alguma frequência na foz de certos grandes rios). Especialmente no Amazonas; mas também noutros pontos do mundo, em que a plataforma continental é baixa e as correntes fluviais podem ter um inesperado e violento refluxo, que sobe, rio acima, às vezes por muitos quilómetros, em 3 ondas de dimensão crescente, acompanhadas do tal ruído ensurdecedor; já descrito nos sécs. XVII e XVIII (cf. o excelente Dicionário, de Ant.º Geraldo da Cunha, que cita Luís Figueira, 1636; Heriarte, 1667; Berredo, 1749; etc.). O próprio Colombo também terá sido confundido pelo fenómeno, na foz (delta) do Orinoco (1498). Em menor escala, também há ondas de maré (“tidal waves”) em locais como a baía de Fundy (leste do Canadá), o rio Sena, o monte de Saint Michel, Saint-Malo (Bretanha francesa) e outros.

  2. De “Rio de águas paradas” a Rio em fase de verdadeira “pororoca”). Dado que Rui Rio é quem hoje manda no PSD (ele é o PSD, no fundo…), a sua negativa imagem estende-se ao próprio PSD. Já aqui no DM, em textos anteriores, falámos em “Crónica de uma morte anunciada”; “fluvial naufrágio”; “galeria de emplastros”; que “nem come nem deixa comer”; e “Rio abaixo, até à 1.ª catarata”. E avisámos que, comandado por Rio, o PSD não iria a lado nenhum. Melhor, de longe, teria sido se a minoria de filiados que lhe deu curtas vitórias sobre Santana Lopes, e depois sobre Luís Montenegro, tivesse votado ao contrário. Na altura, houve também quem dissesse que se tratava de um “rio de águas paradas”, ou antes, de uma “lagoa de água poluída”; agora, pode mesmo alegar-se que nos confrontamos com um “rio que anda para trás”, com uma verdadeira “pororoca” amazónica. Tal foi o escandaloso entendimento de Rio com António Costa, com vista a que os populares e sempre interessantes debates parlamentares quinzenais (com a presença do 1.º ministro) passassem a ser apenas de 2 em 2 meses (“bimensais”, para iludir os que são menos fortes em língua portuguesa, que poderão pensar que a palavra também quer dizer “duas vezes por mês”…).

  3. O PSD renuncia assim à única tribuna de onde se podia fazer ouvir…). E mesmo assim, o regulamento da Assembleia da República concedia sempre bastante mais tempo ao Governo (e ao único partido do Governo, o PS…) para falarem. Porém, dado que nas últimas eleições o PSD tivera a “estrondosa” votação de 28%, era beneficiado com algum espaço para fazer oposição (se o seu líder estivesse nisso interessado…). Mas nem isso quer aproveitar.

  4. Até o “deputado dos bichinhos” protestou veementemente…). Do BE ao CDS, do PCP ao PAN e aos Verdes, quase todos protestaram com indignação contra este entendimento inesperado entre o PSD (de Rio) e o PS, o qual leva na prática a que António Costa possa tomar uma série de decisões à sua maneira, “pela calada”; e a que elas só possam ser denunciadas ao distraído público 2 meses depois, sendo com frequência já tarde demais para os seus efeitos serem anulados ou ao menos, mitigados.

  5. Os debates foram instituídos por Sócrates,em 2007). Por mais defeitos que, comprovou-se depois, o político alijoense (embora nascido no Porto) tivesse, com eles contrastava a sua boa capacidade argumentativa. E as crises financeiras de 2008 a 2011 ainda não tinham chegado. Sócrates, à época, derrotava com alguma facilidade um ainda incipiente e complacente Passos Coelho, na Assembleia.

  6. Hoje, era Costa que normalmente derrotava Rio). Rio não gosta de debates, é nervoso, perde a calma com toda a gente, não tem rasgo político, só sabe conspirar (e mal…). Como aqui já escrevi uma vez, Rio faz figura do “sempre noivo” (de Costa, claro); de “bengala do malabar”. Para mais, a bancada do PSD de hoje nada tem a ver com as do passado, cheias de bons oradores. A estes novos, adeptos de Rio, quase ninguém conhece, sequer pelo nome. Só o CDS é que ainda vai tendo alguma oratória de nível, sobretudo com a cada vez mais sólida Cecília Meireles (menos vezes, com Telmo Correia, João Almeida ou o jovem líder, “Chicão”).

  7. Quanto mais me bates, mais gosto de ti”). A humilhante graxa que Rio dá a Costa, de nada vale. Pois Costa (e bem), namora mas é os partidos à sua esquerda, gozando com o “Rio Donald”, o sempre convencido e optimista “patinho do Norte”. E já há quem chame ao PSD, o novo “PS-B”…

  8. Será para “abafar” Ventura e o escrutínio dos 45 mil milhões da CE?). Embora ilegítimo, um entendimento do viscoso “centrão” (PS mais PSD) com esses secretos objectivos, já fará mais sentido. Ventura, no momento, já é um promissor candidato a uns 15% nas Presidenciais. E os corruptos do costume, esses gostam de “pôr a mão” nos milhões prometidos para ultrapassar a Crise Económica causada pelo vírus asiático do Covid 19. Agora, um líder como Rui Rio, que diz que os debates quinzenais devem acabar, só para que o 1.º ministro do partido rival “possa trabalhar”, esse pseudo-líder só merece ser rapidamente substituído…


Autor: Eduardo Tomás Alves
DM

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4 agosto 2020