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Romanices insidiosas

Anunciados como ‘espetáculos’ de grande atração popular, vemos emergirem propostas ‘culturais’ eivadas de neopaganismo, na medida em que o quadro histórico é pré-cristão e os ingredientes estão eivadas de sinais, formas e situações bem anteriores ao surgimento do cristianismo no nosso país…cortejo triunfal, batizado romano, circo, casamento…comidas, espetáculos, acampamento militar… tudo cheirando a coisas com mais de dois mil anos e que o cristianismo venceu pela força da fé e com o derramamento de sangue de tantos mártires cristãos.

1. A que se pode dever tanto entusiasmo por certas manifestações à romana? Serão estas ocorrências a denúncia da falência de um certo cristianismo com o recurso a sugestões ditas culturais de antanho? A reconstrução pretensamente histórica não ofenderá a ética (moral) cristã? Como poderemos avaliar a afluência a tais eventos, se comparados com celebrações religiosas (cristãs, católicas ou de outra expressão não-romana) decorrentes por esta época na região? Não andará por aí subjacente o tão consagrado lema romano – ‘pão e jogos’ (panem et circenses) – para tentar entreter, educando e talvez educar, entretendo?

2. Nesta abordagem à recriação do tempo romano tenho por base uma iniciativa que decorre na cidade de Braga desde 2003 e com o título – ‘Braga romana’. Na wikipédia podemos ler como discrição desta iniciativa: «é um evento que decorre anualmente, emBraga,em maio ou junho, desde 2003. Pretende mostrar como seria a vida na cidade na época em que integrava oImpério Romano, evocando o seu quotidiano como cidade-capital da província daGalécia. Nestas festividades, é recriado ummercadoromano que é palco de artescircenses,representações dramáticas, simulações bélicas, personificaçõesmitológicas, malabarismos, interpretações musicais e bailados da época deBracara Augusta. Esta viagem no tempo inclui ainda a organização de umaescolaromana, uma área de animação infantil e a tradicional receção aAugusto(27 a. C.-14 d.C.), em que se procede à leitura do édito fundador e à nomeação do administrador da cidade. As festividades incluem também dois Cortejos Romanos pelas ruas do centro histórico da cidade, um diurno e um noturno». Lemos e registamos!

3. Seria mesmo preciso que a designada ‘cidade dos arcebispos’ recuasse tanto na sua história para se afirmar no contexto cultural hodierno? Onde fica a memória das histórias de perseguição aos cristãos daquele tempo? Foram varridas essas vivências cristãs para debaixo do tapete dos interesses económicos de hoje? Se atendermos ao quadro de tempo quase sentimos vergonha por fazermos parte – mesmo que à distância – do clube de mudos e conformados com tudo quanto surge, desde que cheire a dinheiro… pelo menos assim parece! A turba vai para onde a guiam, desde que lhe satisfaçam os intuitos…mais recônditos!

Esta ‘Braga romana’ pode ser muito útil para fazer festa, mas será que alimenta alguma fé (ou fés)? Não será mais uma proposta bem urdida pelas forças menos-cristãs, anticristãs e a-religiosas numa conquista de protagonismo mesmo entre alguns ‘praticantes’ mais ou menos ignorantes e um tanto oportunistas?

4. Que é preciso divertir o povo não há a mínima dúvida, sobretudo depois do tempo de pandemia, mas que se tenha também respeito suficiente sobre quem – naquele território ou noutro – sofreu e sofre para poder afirmar a sua fé. Há questões que não estão na rua ao desbarato… ainda não viram?

Braga e outras cidades – mesmo aquelas que se entretêm com ‘feiras medievais’ e não só – merecem melhor… histórica, social, política e culturalmente. O que diz, então, a Igreja católica sobre tudo isto? Aqui o silêncio não é de ouro, mas de possível cumplicidade ou (sei lá) de cobardia!

5. Esta é uma leitura/visão de quem vê as coisas na diáspora, sem rede nem outros interesses…agora, no passado e tão-pouco para com o futuro!


Autor: António Sílvio Couto
DM

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6 junho 2022