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Um “déjà vu” frequente, na história do PSD).Na já longa história deste partido, fundado em 1974, houve mais que uma vez assaltos bem sucedidos à liderança, que as bases repudiavam. Mas essas bases tinham de se sujeitar a ter de ficar à espera de o partido naturalmente perder as eleições seguintes, para poderem substituir essas chefias por outras, verdadeiramente fiéis às simpatias dos filiados e dos votantes. Exemplos disto foram as transitórias chefias de Emídio Guerreiro, F. Pinto Balsemão, Marcelo Rebelo de Sousa, Durão Barroso, Manuela Ferreira Leite. E agora, do dr. Rui Rio, sem dúvida um homem de valor, mas de quem nunca ninguém percebeu em pormenor o pensamento político; e que calcula erradamente que, se estiver quietinho, se “se fizer de morto”, o povo vai ficar todo entusiasmado e votar nele, pensando que está ali uma “mina de ouro”. Ganhar a câmara do Porto como ele ganhou a Fernando Gomes, do PS (depois de Gomes arruinar a sua reputação com “requalificações” da Baixa que demoraram 5 anos, ou com a “célebre” e poluente ETAR de Lordelo do Ouro) foi muito mais fácil do que será ganhar umas eleições nacionais. Mesmo dentro do PSD, Rio foi “cilindrado” por Santana Lopes, no 1.º debate, conseguindo resistir melhor no 2.º. Lopes (ou agora Montenegro, Hugo Soares, Abreu Amorim ou até Marco António Costa) galvanizariam com muito mais facilidade o aguerrido “povo social-democrata”.
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Alguns pontos fortes de Rui Rio).A favor de Rio não há muita coisa. Mas há com certeza o facto de a curiosidade popular querer saber o que fará o “misterioso personagem” se fosse mesmo eleito para o lugar do dr. Costa. É uma curiosidade algo irresponsável (e quase mórbida…); porém, é um factor que joga a seu favor. Por outro lado, o povo gosta de “caras novas”, sobretudo se as que estão, não são nada por aí além e já as tivemos de aturar por 4 longos anos. Para mais, são (como se diz no Brasil) uns “impingidos”, pois nem foram eles a ganhar as eleições que (por fraqueza de Cavaco) produziram a traiçoeira e imprevista “Geringonça”.
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Mas Rio tem muitos pontos fracos).Ninguém sabe o que ele pensa. Não se lhe conhece um sistema de ideias coerente. Durante o governo de Passos Coelho, em várias ocasiões quase se juntou ao PS (e ao colega autarca Costa); como se pudesse ser ignorado que o PSD cumpria então o amargo dever patriótico de “repor o país nos eixos”, depois do custoso descarrilamento dos 6 anos do consulado socialista de Sócrates (2005-11). Foi um facto que, para um personagem do estatuto de Rui Rio soou como uma verdadeira traição aos seus correligionários. Depois, Rui Rio (para desagrado de muitos eleitores do centro e do sul do país) tem um tom de voz algo arrogante; e sobretudo, um sotaque que aqueles associam a um empresário ou até a um intelectual do Norte, características que não consegue disfarçar. E, pior ainda se eleva a voz (também Barroso ficava péssimo, se falava alto…). Depois, denota uma indisfarçável impaciência com perguntas incómodas ou entrevistas que durem “mais de 30 segundos”, denotando um perfil e inclinações que não são lá muito prometedoras num político democrático. À vista da anunciada “borrasca”, Aguiar Branco, seu aliado de décadas, sorrateiramente já saltou do barco. Morais Sarmento, outro amigo de sempre, esse fica. Porém, é o tal que andava meio desaparecido depois de afirmar que “votaria em Costa se Santana Lopes ganhasse a Rio nas internas do PSD”. Por último, Rio está mal rodeado. Não é a nata (nova ou antiga) do PSD que o acompanha. É Álvaro Amaro, Arlindo Cunha, José Silvano, Salvador Malheiro, Castro Almeida, Elina Fraga, Feliciano Barreiras Duarte. E sabe-se lá, talvez o outro Duarte, o de Maricá, no Rio de Janeiro…
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O Aliança e a importante cisão de Santana Lopes).Pouco depois da sua inesperada e magra vitória interna sobre Santana Lopes (54vs. 46%), Rio decretou que “quem não estiver bem que se mude”, menosprezando o peso das correntes que derrotara. Pouco tempo depois, para surpresa e tristeza de muitos, Lopes fartou-se de anos e anos de ingratidão (do PSD e dos portugueses em geral…) e foi-se, fundando facilmente um novo partido. É preciso não esquecer que Lopes já fora em 2005 demitido, sem razão, de 1.º ministro pelo PR Sampaio. E que foi de longe, agora, quem mais entusiasmara as bases na campanha. E porém, Rio teve mais votos, certamente pelas manobras das “forças subterrâneas da Democracia”. As mesmas que há 4 anos ajudaram Costa a roubar a chefia do PS ao muito mais popular (e viável) António José Seguro. A 8 meses destas eleições, eu não estranharia que Lopes obtivesse 5 a 10% do voto popular, se até lá não fizer algum disparate, é claro. O certo é que em Janeiro, as sondagens dão menos de 25% a Rio.
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Perdas para o CDS e ganhos vindos do PS).Este curioso cenário é também bastante plausível. Deve haver alguma margem flutuante que antes votou PS e agora votará em Rio, homenageando a sua moderação e a efectiva traição a Passos Coelho e ao PSD nos anos da “troika”. Por estes mesmos motivos de relativa aleivosidade “fluvial”, digamos, também alguns votos irão fugir do PSD para este CDS comandado pela dra. Cristas, essa “rainha das falsas partidas”; cuja assinatura ironicamente (e simbolicamente…) já ajudou a destruir “outro rio”, o Tua; quando, sem necessidade, permitiu a construção da barragem nesse rio seco mas imensamente belo. E, não fora Santana Lopes travar um pouco essa fuga, maiores seriam as perdas, já que há ainda que registar à Direita, a existência dos salazaristas do PNR e talvez, dum nóvel partido, o Basta, do advogado André Ventura.
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Seria melhor Rio ter enfrentado Montenegro em congresso extraordinário).Mas a sua proverbial teimosia (e neste caso, covardia) adiou o confronto. Se o congresso tiver lugar logo depois das “Europeias”, ainda vai a tempo. Porém, se os “riistas” (ou “fluminenses”) aguentarem até às parlamentares de Outubro de 2019, irão perder para o PS e prestarão um mau serviço ao país. Que poderá até vir a ser governado por outra “geringonça”, mas agora de centro-direita…
Autor: Eduardo Tomás Alves