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Respostas que tardam

A doença é algo imprevisível. E quando surge, a primeira medida a ser tomada é a de procurarmos um médico que, pelos sintomas, no-la possam diagnosticar, ou aconselhar outro da especialidade a que ela diga respeito. E assim foi num destes dias, em que acompanhei um familiar, portador de doença crónica, que nunca mais via ser-lhe anunciado o dia em que poderia ser chamado e atendido no nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS), se viu forçado a ter de recorrer a uma unidade privada de saúde,

É que com a pandemia a inundar os serviços de saúde públicos, a coisa complicou-se em termos de atendimento a outras patologias. Ou não faltassem 1100 médicos de família no país para além dos 1700 clínicos que fugiram para o privado e, proximamente, mais 1000 que irão para a reforma.

Pois bem, uma vez no hospital privado – onde muitos dos que a ele recorrem vão lá, como é costume dizer-se, pagar a “mula roubada” – fiquei “banzado” com a procura daqueles serviços por parte de muitos portugueses. Já que nos monitores não parava de soar o ‘sinal’ de chamada e os respetivos números das senhas tiradas para as várias especialidades.

Uma coisa deu para imaginar: “o que seria do SNS se toda aquela gentinha, presente naquele e noutros hospitais privados, invadisse os públicos”. Isto é, caso não pudesse ver naqueles satisfeita a sua pretensão e se visse obrigada a dirigir-se para estes. Certamente que seria o entupimento total. Ou seja, se há atos médicos a demorarem um ano, ou dois quanto mais tempo teriam de esperar?

Ora, apesar de toda a propaganda que é feita – dizendo que se trata do melhor sistema de saúde público do mundo – não me convence. Seria de facto, se quem nos tem governado tivesse feito mais por ele. É que a falta de respostas, dada a escassez de recursos humanos, vem sendo de tal ordem que só no IPO, de Lisboa, faltam 300 profissionais de saúde, em relação a 2021, inclusive em outras instituições públicas em todo o país.

Contudo, o que mais me impressiona é saber que, apesar dos ‘entrolhos’ ideológicos que alguns dos nossos políticos usam, os mesmos recorrem constantemente aos serviços privados de saúde. Tendo havido, até, alguns dos maiores defensores do SNS, não só a tratarem-se, como a terminarem os seus dias de vida em hospitais e clínicas privadas. O que só vem demonstrar que se fossem coerentes com aquilo que afirmam e com o que realmente se passa nos serviços Públicos de saúde e nos privados, há muito que teriam articulado os dois sistemas.

Mas não. Em vez de acautelarem o futuro da saúde em Portugal, passam todo o tempo a brincar ao ‘põe e tira’ das PPP’s, deixando muitos milhares de portugueses á espera de uma simples consulta e 206 mil a aguardarem por uma cirurgia. E porquê? Porque 40% dos clínicos que se formam não ficam no SNS. Enquanto vimos 1300 enfermeiros licenciados, entre 2015 e 2021, a abalarem para o estrangeiro.

A juntar a tudo isto há, ainda, 4500 pedidos de escusa de responsabilidade pelos cuidados prestados, na Ordem dos Enfermeiros, ou seja, um em cada 10 enfermeiros já o fez – e outros preparam-se pra o fazer – por se encontrarem exaustos e desmotivados. Com consequências para quem descontou e pagou impostos uma vida e se vê em risco de adiamento não só das consultas de prevenção da doença, como de cirurgias e outros atos médicos. Ademais, as 35 horas semanais, decretadas pelo Governo PS, só fizeram com que o pessoal escasseasse mais ainda.

Com efeito, termino dizendo que o SNS continua a fazer todo o sentido ser de pendor público, universal e tendencialmente gratuito, mas que satisfaça, na hora, as necessidades dos cidadãos quando dele mais precisam. Estando, eu, convicto de que só se levantará das quedas que tem sofrido quando esta maioria absoluta socialista for capaz de se libertar da matriz ideológica – a que tem estado presa – e evoluir num sentido menos preconceituoso e um nada mais liberal do termo, em prol da eficácia às inúmeras respostas que tardam.


Autor: Narciso Mendes
DM

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14 março 2022