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Raízes

A folestria é elucidativa: após o anúncio da mobilização de reservistas por Putin, para tentar salvar a guerra que vem perdendo com a Ucrânia, o filho de Peskov, porta-voz do Kremlin, foi alvo de uma partida dos opositores do regime, que se fizeram passar por oficiais de recrutamento e que o convocaram para a operação militar, ao que Nikolai recusou combater, fazendo saber quem era seu pai, tornando-se mais um de entre centenas de milhares de reservistas russos que recusam a incorporação, muitos em fuga para Estados vizinhos.

É um clássico: mandar os filhos dos outros para guerras de agressão é fácil, mas enviar os próprios isso não! Em Esparta também era o Estado que decidia que crianças deviam sobreviver, somente aquelas com aptidões para a vida militar; o “homolói” era retirado da família aos sete anos para se dedicar ao treino para guerra, onde provavelmente iria morrer. Mas isso não se aplicava aos filhos do rei.

Facto é que vivemos um tempo conturbado, sem rumo e sem matrizes de valoração comportamental. A guerra grassa na Europa como não acontecia desde o fim da II Guerra Mundial. Na Itália são eleitas forças da extrema direita, o que não sucedia desde a queda de Mussolini. A inflação atinge valores que não se viam há décadas. Os custos de energia abatem as contas das empresas e dos particulares. A perda de poder de compra está assumida por todo o ocidente. As prestações da casa sobem, mas o agravo das taxas Euribor não se reflete no aumento da remuneração dos depósitos, parecendo que os Bancos querem o lucro à custa do sacrifício dos depositantes e não através da aplicação rigorosa de mecanismos de controlo internos. O euro está abaixo da paridade do dólar, como raramente se viu, consequência da fraqueza da economia europeia e resultado de políticas erradas de desindustrialização.

As principais economias entram em recessão técnica. Os nacionalismos emergem e as democracias perigam com a falta de liderança. Os portugueses desesperam com a subida em espiral do cabaz alimentar e, sem soluções à vista, como outros europeus, começam a admitir cedências à Rússia em busca de uma paz perdida que traga a tranquilidade e prosperidade, piorando a imagem se pensarmos que o total de reservistas russos ascende a milhões, mobilizáveis para uma guerra infindável e que pode alastrar a outras zonas da Europa. Espera-se que a China mantenha a contenção, mas a questão do Taiwan pode escalar.

As medidas de política económica chegam atrasadas, olvidando Lagarde, no seu discurso lúgubre, de assumir a culpa por não ter agido atempadamente: se a subida das taxas dos bancos centrais não está a dar resultados no controlo da inflação, deve-se a não terem sido tomadas no início do ano, pois demoram tempo a ganhar efetividade.

Todavia, há sinais positivos. No Irão as mulheres lutam pelos seus direitos; a NASA anuncia um passo gigante na defesa planetária com a colisão bem-sucedida de um asteroide; Tolentino de Mendonça foi nomeado prefeito do novo Dicastério para a Cultura e Educação. As taxas de desemprego vão-se mantendo baixas; e por todo o lado existem gestos de bondade, pequenos feitos de gente comum, seguindo Marco Túlio que elevou o enaltecimento dos valores éticos e morais que justificariam a atribuição da cidadania a Árquias, dando voz a um excerto magnificamente trabalhado de George Elliot, tirado do romance“Middlemarch. Um estudo da vida provinciana”que dá o título (“Uma vida oculta”) e significado ao filme deMalick sobreFranz Jägerstätter, beatificado pelo Papa Bento XVI, que vai no sentido da grande influência que pequenos gestos, que nem lugar possuem no rodapé dos livros de História, podem ter na vida de cada um.

Para um povo que se habituou a viver de fé e esperança, Deus envia personagens como Monsenhor Silva Araújo que pelo altruísmo e amizade nos tocam, nos abrem os olhos para a beleza do mundo, que nos fazem procurar o melhor de nós e dos outros. Foi sob os auspícios das suas orações que a Misericórdia de Braga aprovou a recuperação do pavilhão sul do Hospital S Marcos, onde será também instalada uma moderna unidade de cuidados continuados que Braga bem precisa. Hoje escrevo a seu lado. Tal como no seu livro “Raízes”, deixemo-nos levar ao fundo da nossa existência e receber “um terno, carinhoso abraço”.


Autor: Carlos Vilas Boas
DM

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29 setembro 2022