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Que se passa?

Diariamente a comunicação social relata uma morte, vítima de violência doméstica: pai que esgana a filhinha, outro que mata a sogra, aquele que esfaqueou até à morte a ex-namorada ou esposa, tornando estes crimes de um horror há muito nunca visto. Talvez tenhamos de nos remontar aos tempos em que o marido tinha o direito de vida e de morte da mulher e dos filhos. Mas hoje, infelizmente, a vida que deveria ser um impositivo moral, um ditame religioso e um valor jurídico, não goza desses direitos. Que se passa, então, nos dias de hoje?

Passa-se que a sociedade está exaurida de valores morais, as igrejas estão vazias e as leis dos tribunais são inadequadas; assim, nem a sociedade pune, nem a religião chega às pessoas, nem as leis são dissuasoras para crimes de violência doméstica. A sociedade anda em roda livre, tão livre quanto o livre-arbítrio. Quando a lei moral deixa de atuar, e a religião já não forma consciências, torna-se necessário recorrer às leis penais severas, dizem muitos.

Mas o rigor das leis não resolve aquilo que vai no interior de cada indivíduo; se assim fosse nos países onde ainda há pena de morte, não haveria criminosos. A repulsa contra a violência doméstica tem de ser criada no interior de cada um, tem de se constituir como uma aberração; tem de haver um movimento de dentro para fora porque, se for ao contrário, quando a lei chega já é tarde porque pune o infrator, mas não evita as vítimas.

De imediato há que salvar as crianças de lares desavindos; há que legislar e aplicar uma lei que considere que os filhos de casais violentos também são vítimas e não apenas assistentes dessa mesma violência conjugal. Mas se eles assistirem a essa violência vão imitar mais tarde os comportamentos violentos que viram praticar. Assistentes sociais, juízes, relatórios, vizinhos, amigos ou mesmo familiares, têm obrigação de denunciar os casais que se violentam diante dos filhos.

A sociedade é cada vez mais formada por estes indivíduos, por isso tornou-se numa sociedade violenta. Mas se a sociedade hodierna já não tem poder de censura e banalizou ou relativizou os usos e costumes ao ponto de fazer para cada indivíduo uma lei à sua medida, pergunta-se que sociedade é esta? É a sociedade que mata por dá cá aquela palha; por outro lado, as igrejas, as que pregam o amor e harmonia na convivência, estão sem fiéis. A doutrina que pregavam não é escutada porque o seu púlpito está a pregar aos peixinhos.

Há que fazer aqui uma grande e profunda reflexão. A religião é um dos outros grandes pilares duma sociedade; os valores da dignidade humana, o respeito pela vida, constituíram-se em dignidade existencial religiosa e não apenas humanista; dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, visitar os enfermos e encarcerados, são obras de misericórdia muito importantes para o corpo; mas há que chegar mais fundo, há que chegar à alma, há que ir lá dentro, há que formar as consciências voltadas para os sentimentos de culpa.

Como se materializam estas ideias? A Igreja saberá fazê-lo melhor do que ninguém; há dois milénios que tem o poder espiritual. A sociedade atual sabe que há nus, esfomeados ou sedentos. Sabe que há violência doméstica e pratica-a. Ela começa no namoro! Que fazem eles? Hão de fazer melhor, se lhes ensinarmos a fazê-lo; nós apenas lhes demos a educação para o sucesso material. Faltamos-lhes com a educação moral e religiosa que lhes tornasse imoral o ato de violentar. E esta educação perdemo-la há trinta ou mais anos. É isto que se passa.


Autor: Paulo Fafe
DM

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18 fevereiro 2019