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Quatro Meses Depois…

Decorreram precisamente quatro meses desde a última vez que assisti presencialmente a uma conferência. Ao receber o convite fiquei indecisa. Como seria agora com todas as medidas de segurança existentes participar num evento desta natureza? Tinham sido quatro meses bem difíceis não só para mim mas para todos, devido ao período de confinamento, em virtude de pertencer a um grupo de risco. Mas adquiri outros conhecimentos. Aprofundei as competências na área das novas tecnologias. Não me queria sentir isolada, enquanto ser social que carece de todos os contributos da sociedade no sentido me manter ativa, pelo menos a nível intelectual. Contudo, não me sentia atraída pela narrativa como era habitual. Com algum esforço e a pedido, elaborei dois poemas no sentido de integrarem a Antologia Comemorativa do VII Encontro de Poetas da Língua Portuguesa. O lançamento encontrava-se agendado para o mês de Setembro. Seria um enorme gosto voltar a encontrar os poetas da lusofonia que iriam participar, bem como usufruir do seu convívio, da partilha de conhecimentos, de diferentes culturas, das conferências, entre outros. Enquanto me esforçava por corresponder ao pedido pensava interiormente que, eventualmente, não haveria o lançamento na altura programada. No entanto, temos de perspetivar o futuro com novos projetos, ainda que fosse adiado o lançamento, tal como mais tarde viria a acontecer face à evolução da doença SARS-COV-2, ficando agendado para setembro de 2021. Solicitaram igualmente o meu contributo para outra antologia, desta vez em prosa. Não podia declinar o pedido. Já era habitual colaborar nestas iniciativas. Também se encontra adiada sine die. Outras solicitações surgiram às quais já não consegui dar resposta. Carecia imenso de uma pausa. Tudo parecia tão difícil! Era como se me faltassem os meios. Na verdade, o que me fazia mesmo falta era o convívio familiar, os amigos, as longas caminhadas diárias, a liberdade de observar o horizonte infinito, de poder participar nas cerimónias religiosas, de tomar um café, enfim toda a habitual inserção na comunidade onde nos movemos habitualmente. As videochamadas, os telefonemas, as trocas de receitas, a partilha de artigos, o assistir a programas, concertos…também à missa on line diariamente, celebrada pelo Santo Padre, a partir da Casa de Santa Marta, bem como a outras cerimónias do realizadas no Vaticano e certamente ficarão para a história, constituíram pontos altos. Ajudaram e muito a ir enfrentando a pandemia. Houve, um vídeo enviado por uma amiga que veio reforçar a minha decisão temporária. A do autor da música “As time goes by”, que ficou famosa no filme Casablanca e cantada por tantas celebridades. O seu autor, Herman Hupfeld, só comporia esta música que ficou célebre e com ela enriqueceu. Coisas da vida. Ficou célebre com uma única belíssima música.

Com alguma reabertura ao período de confinamento, com todos os cuidados necessários, foi emocionante poder voltar a estar fisicamente com a família mais próxima, retomar as caminhadas, ou simplesmente tomar um café, retomando a normalidade possível. Tudo tem outro sabor, ainda que conscientes, que paira uma ameaça latente sobre as nossas cabeças, não só até existir uma vacina, mas também devido aos reflexos provocados pela doença SARS-COV-2. Mas torna-se necessário enfrentar e reconstruir o futuro a diferentes níveis, com os mecanismos de que dispomos presentemente, e providenciar e melhor outros recursos, para o bem de todos nós, avaliando os acontecimentos com a devida clareza, já na posse de outros conhecimentos, tendo como base a experiência das situações vivenciadas, que, diga-se de passagem, ninguém esperava, ou sequer imaginava, que algum dia pudessem vir a acontecer.

Recebi recentemente o convite de uma instituição, a Via Vitae, no sentido de participar numa conferência virtual inserida nas comemorações dos 70 anos da Convenção dos Direitos Humanos denominada “Conversas em Tempo de Pandemia”, Os Direitos Humanos e a Covid-19, Liberdade e Confinamento. Foi promovida pela Comissão Nacional dos Direitos Humanos. Muito interessante. Foram abordadas diferentes situações, que faculto alguns tópicos do modo pessoal como os interpretei, nomeadamente: o Direito ao Trabalho com a Proteção das Empresas; o Direito à Educação; outro tema difícil, que ainda carece de alguma resposta, ou seja, os Direitos Culturais: e o maior de entre eles, dada a toda dimensão social que envolve, o Direito à Proteção Social; conscientes de que nem sempre foram respeitadas as regras democráticas, uma vez que nunca se imaginava uma enorme crise societária como esta. Não é apenas o critério da eficácia que deve determinar a ação, colocando-a muito perto dos limites que colocam em causa a liberdade, podendo ferir o direito à liberdade dos mais velhos. Torna-se necessário fazer uma avaliação em conjunto com o envolvimento de todos os parceiros. Somos uma única humanidade. A lógica dos direitos humanos pode ajudar. É bom pensarmos nestes assuntos, já que não confinámos os Direitos Humanos. Torna-se necessário saber se o Direito Internacional possui as respostas adequadas, ou se está uma pandemia atrasado, sendo necessário reagir e adequar-se. Antevemos uma luta pela vacina. Vamos ter de estar melhor preparados para a próxima pandemia com um regime mais forte e capaz, de modo a poder intervir mais solidariamente. Pode haver circunstâncias extremas discriminatórias, admitindo-se de forma temporal, garantindo-se que as limitações são feitas de forma pontual e de boa-fé. Os Direitos Humanos são indivisíveis e inseparáveis. Alguns Estados aproveitaram-se deste novo normal.

Não consegui assistir ao debate já que tinha uma visita agendada a um lar de idosos onde se encontra uma amiga centenária. Não foi possível alterar a data da visita. Não quis faltar à visita. Gostei da conferência. É bom saber que a sociedade civil pode dar o seu contributo no sentido de melhorar algumas lacunas detetadas. Também ver o Estado, inúmeras Entidades e Instituições de vários setores com extrema importância nesta área, envolvidos no sentido de avaliar, melhorar e adequar, criando novos mecanismos e aferindo outros quando assim se revelar necessário.

Bem, se me permitem volto à conferência presencial que tinha referido no início. Os meus receios foram ultrapassados. O orador referiu, a certa altura, que “não devemos perder o bom caminho, quando as coisas não correm bem na nossa vida, temos de lutar contra o desânimo com uma perseverança refletida. No meio da confusão em que se encontram as nossas vidas, devemos procurar manter um espírito mais desportivo, uma santa teimosia, uma constância, formarmo-nos bem, continuamente, recordado: “sempre que o mundo é mundo, nada esteve muito bem, nem sempre encontrámos respostas imediatas para os problemas existentes nas nossas vidas”. Temos de aprender a viver com eles, combatendo o desânimo causado pela pandemia a nível pessoal, familiar, de saúde, económico, entre outros, procurando manter viva a esperança, mantermo-nos ativos, dando o nosso contributo possível, pensando que não nos encontramos sós nesta situação de insegurança e de grande fragilidade humana. Não confiemos unicamente nas nossas próprias forças. Recorramos a Deus. Apoiemo-nos na família, nos amigos em quem confiamos. Em conjunto, surgirão as forças necessárias para superarmos mais esta crise societária nas nossas vidas. Santa Maria, Rainha da Esperança. Intercedei por todos nós.


Autor: Maria Helena Paes
DM

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29 agosto 2020