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Quaresma e Semana Santa

1. Posso estar a exagerar. Admito que esteja a exagerar. Mas custa-me imaginar a Quaresma e a Semana Santa convertidas em número de promoção ou propaganda turística. Em oportunidade de negócio ou de exibicionismo. 2. Principia a Quaresma com a Quarta-feira de Cinzas em que somos convidados a pensar na realidade do que somos. Lembra-se o profeta Joel a apelar a uma verdadeira conversão: rasgai os corações e não as vestes (Joel 2, 12-18). O texto do Evangelho proclamado nesse dia lembra a importância da oração, do jejum e da esmola, praticados sem a preocupação de dar nas vistas(Mateus 6, 1-6.16-18). Recorda-se na Quaresma a presença de Jesus no deserto e a forma como resistiu às tentações a que todos estamos sujeitos, simbolizadas no desejo imoderado do ter, do poder usado como forma de domínio e não de serviço, do espetáculo exibicionista(Mateus 4, 1-11). 3. Diz-se que a Quaresma deve ser tempo de recolhimento e de reflexão. Tempo de revisão de vida. Tempo privilegiado para o encontro de cada um consigo mesmo e com Deus. Tempo de reconciliação. É para isso que somos realmente convidados e encaminhados? 4. Na sua mensagem os nossos Bispos, D. José e D. Nuno, recomendam particular atenção aos outros. «Neste itinerário quaresmal e pascal, escrevem, recordamos as crianças que vivem na encruzilhada do abandono escolar e da ausência de afetos; trazemos no coração os jovens que experimentam a encruzilhada da incerteza do futuro e do desemprego; acalentamos as famílias que estão na encruzilhada da separação ou da perda de sentido; lembramos os idosos que suportam as cruzes da solidão e da rejeição; cultivamos a caridade pastoral devida aos doentes, aos enlutados, aos prisioneiros e hospitalizados que permanecem no cruzamento entre a vida e a morte, entre a liberdade e peso da dor; unimo-nos aos leigos e sacerdotes que se sentem na encruzilhada dos rumos a tomar para as suas comunidades cristãs, nomeadamente no serviço da liturgia, da catequese e da caridade; sintonizamo-nos com as encruzilhadas que os governantes, os profissionais de saúde e as forças de segurança enfrentam no seu quotidiano em benefício de todos; rezamos por todos os que vivem indiferentes e apáticos à fé cristã nas encruzilhadas da ausência de esperança». 5. O Papa Francisco recomenda que “não nos cansemos de semear o bem": «A Quaresma convida-nos à conversão, a mudar mentalidade, de tal modo que a vida encontre a sua verdade e beleza menos no possuir do que no doar, menos no acumular do que no semear o bem e partilhá-lo». «Não nos cansemos de pedir perdão no sacramento da Penitência e Reconciliação, sabendo que Deus nunca Se cansa de perdoar». «Não nos cansemos de fazer o bem, através duma operosa caridade para com o próximo». «Aproveitemos de modo particular esta Quaresma para cuidar de quem está próximo de nós, para nos aproximarmos dos irmãos e irmãs que se encontram feridos na margem da estrada da vida». «A Quaresma é tempo propício para procurar, e não evitar, quem passa necessidade; para chamar, e não ignorar, quem deseja atenção e uma boa palavra; para visitar, e não abandonar, quem sofre a solidão». 6. Que o espetáculo em que se poderão converter a Quaresma e a Semana Santa (para turista ver e deixar uns euros) não distraia da Via-Sacra vivida, ao longo do ano, por muitos irmãos nossos. Via-Sacra onde nem sempre há uma Verónica para limpar o rosto. Um Simão de Cirene para tornar mais leve o peso da cruz. Uma esponja para dessedentar lábios ressequidos. Via-Sacra em cujo termo nem sempre há o olhar de uma pessoa amiga ou um José de Arimateia para dar sepultura digna. Onde o túmulo pode ser a vala comum.
Autor: Silva Araújo
DM

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31 março 2022