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“Quando a esmola é grande, o pobre desconfia”…

Numa noite gélida em vésperas de Natal, algures numa grande cidade do país, um cidadão sem-abrigo e desafortunado da vida questionou o Presidente da República no sentido de se lembrarem dos portugueses pobres e abandonados pela sociedade com responsabilidades acrescidas no apoio institucional.

Com “residência” em qualquer rua citadina, o jovem em causa lamentava que estava cansado de procurar emprego e não conseguia obtê-lo, porque não tinha um tecto para morar e sempre que expressava a verdade de que dormia na rua e lavava-se no fontanário público, vivendo das “moedinhas” caídas da generosidade dos cidadãos, a sua candidatura era rejeitada pelo universo empresarial, temendo a perigosidade cadastral e o perfil identificativo do estilo comiserado do desempregado.

O Professor Marcelo Rebelo de Sousa, na história presidencial, tem como uma das suas características cumprir metas estratégicas no combate ao problema dos portugueses sem-abrigos e a viverem abaixo do limiar da pobreza, nomeadamente, batendo-se pela criação de mecanismos céleres no acompanhamento dos cidadãos com rendimentos reduzidos a zero e desintegrados da cidadania.

O Instituto Nacional de Estatística aponta para a existência de 2 milhões e quatrocentos mil cidadãos nacionais em risco de pobreza ou de exclusão social, um número demasiado alto, contracenando as “profecias” do governo geringonça ao apregoar em alta voz o engodo de que os portugueses vivem melhor e a economia do país está robusta e saudável.

A incerteza, a ausência do expectável em matéria de projectos futuristas, a precariedade laboral, a redução do valor dos salários, a insustentabilidade do custo de vida, a falta de interesse governamental na erradicação ou diminuição consistente da pobreza ou exclusão social, posiciona Portugal no décimo primeiro lugar num conjunto de 26 Estados Membros da União Europeia, configurando-lhe um vergonhoso cenário propenso à inabilidade ou falta de aptidão em destronar a tendência de um quarto da população portuguesa (23%) indigente, condenada do ponto de vista moral e social, à fome, à doença e a viver sem dignidade e qualidade mínima de vida.

Calcula-se que Portugal seja detentor de 3.500 sem-abrigo contabilizados. Há os envergonhados que não fazem “ondas” e não estão interessados na lista nominativa, isto é, o número de pessoas a viverem na rua deverá ser muito maior, causando um factor de preocupação profunda da sua integração a uma possível ajuda de alojamento temporário e rastreio à sua condição física e mental.

Há efemérides em que o pobre enche a barriga com a “caridade” sazonal da sociedade. Não fossem as ONG’s, no dia seguinte e dentro das suas possibilidades, tudo estaria muito pior.

A pobreza apoiada não pode ser interpretada como um indicador de acto de misericórdia ocasional a quem sofre de privações ou cartaz oportunista no usufruto de objectivos fundidos na falsidade, fraude da acreditação da solidariedade social aproveitada como trunfo institucional, de índole pessoal ou de performance político.

Os pobres estão-se marimbando para os “comendadores da boa causa duvidosa” e não são parvos, percebem facilmente o que é um apoio de verdade e desinteressado.


Autor: Albino Gonçalves
DM

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21 janeiro 2019