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Prometer e não cumprir está na nossa matriz?

  1. Faltar à palavra é um mal. Mas sem esse mal haveria Portugal? Se o primeiro – e, porventura, maior – político português mantivesse sempre o que disse, o mais provável é que o nosso país não existisse. Será que prometer e não cumprir é uma injunção da nossa matriz?

  2. É sabido que a D. Afonso Henriques não bastava ser conde portucalense. A sua ambição era ser rei de Portugal. Determinado, não olhou a meios para atingir os (seus) fins. Em 1128 (na Batalha de São Mamede), ousou pelejar contra o exército da própria Mãe.

  3. Eram muitos os que achavam que D. Teresa, por causa da sua ligação à família Peres de Trava, estava a tornar o nosso território demasiado dependente da Galiza. D. Afonso Henriques não admitia submeter-se à Galiza. Pelo contrário, chegou a tentar submeter a Galiza. Foi o que sinalizou ao anexar Límia e Toronho.

  4. Acontece que o rei de Leão tinha pretensões hegemónicas sobre as restantes nações peninsulares. D. Afonso Raimundes, que se tomava por imperador, ficou sobressaltado com os avanços de D. Afonso Henriques, que até era seu primo.

  5. Ele já tinha vindo – possivelmente em 1127 – cercar Guimarães com o propósito de obter uma promessa de vassalagem. Egas Moniz ter-lhe-á dado o seu assentimento.

  6. Só que D. Afonso Henriques quebrou o compromisso assumido pelo seu aio. Foi então que Egas Moniz, com a mulher e os filhos, partiu para Toledo. E de corda ao pescoço apresentou-se diante do rei de Leão.

  7. Reapossando-se das localidades galegas, o monarca leonês rubricou com o nosso primeiro rei um tratado em Tui, a 4 de Julho de 1137. Nele, terá obtido do nosso soberano um juramento de fidelidade.

  8. Contudo, a situação iria sofrer mais um refluxo. D. Afonso Henriques não valorizou muito o que prometera e afoitou-se mesmo em novas incursões pela Galiza.

  9. Se D. Afonso Henriques mantivesse a palavra dada, talvez hoje pertencêssemos a uma única Espanha. Se ele não fizesse o que fez, é quase certo que não haveria Estado português.

  10. Dir-se-á que o amor pela pátria justifica tudo. Será, porém, que aquilo que valeu para a nossa fundação terá validade para a nossa afirmação? Foi a prometer e a não cumprir que nascemos. Mas só cumprindo o que prometemos é que nos respeitarão e nos respeitaremos!


Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira
DM

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29 janeiro 2019