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Profissão: contestatário de esquerda

1.Entre os 2 e os 5 anos, a criança tem necessidade de dizer “não” para poder afirmar a sua vontade. Depois dos 5 anos, segue-se um tempo de alguma estabilidade mas, logo a seguir, vem a fase da adolescência, onde essa necessidade de afirmação pessoal se vai aprofundar mais face às figuras parentais e à sociedade, diferenciando-se delas “porque já não são do seu tempo”.… Começa a construir-se uma espécie de muro psicológico geracional. Para além disso, começa também a fase da identificação com o grupo: juntam-se em grupos e a opinião do grupo vai marcar a sua própria decisão. Primeiro, era ele sozinho que dizia “não”; agora, escuda-se no grupo, que lhe dá mais força. Estão contra as regras que lhes impõem e, às vezes, até partem coisas na via pública para protestar. A sua revolta funciona como a dialéctica hegeliana dinâmica (tese / antítese / síntese) da evolução da sociedade. Mas, porque ainda não construíram a sua autonomia, dependem da rectaguarda económica dos pais para poderem ser oposição. Até aí, nada de anormal. O problema é quando nunca passam desta fase e vivem sempre contra, pela vida fora, tendendo a profissionalizar-se como dirigentes de grupos ou partidos de protesto (não sei se já repararam que os dirigentes dos partidos de protesto de esquerda têm praticamente todos ascendência mais ou menos burguesa).

2.Antes de mais, é importante que se diga que a energia deste caminho dialéctico da nossa evolução faz parte da natureza. Por isso mesmo, precisamos de o entender cada vez melhor para não criarmos artificialmente barreiras entre mais novos e mais velhos (e para que dirigentes mais velhos que já não sabem que fazer, porque os seus modelos de acção já passaram de tempo, façam apelos aos jovens para virem dinamizar as instituições, mas mantendo os passados modelos de acção e o seu poder). É importante que se diga que mais novos e mais velhos fazem parte dessa dialéctica natural do nosso crescimento pessoal e social e que, nesse sentido, ser de esquerda tem originariamente um significado construtivo e evolutivo da humanidade na procura do desenvolvimento e da justiça social para que o mundo seja mais fraterno. O risco vem com algumas ideologias que se apropriaram desse movimento natural e o desvirtuam. Não se trata de ódio nem de luta, mas de procura de equilíbrios e de soluções, que nunca são definitivas.

Quanto aos que se reclamam de profissionais de esquerda, mas que vivem instalados na tese do poder, embora se apresentem como sua antítese e contra, o que se constata é que não chegaram a passar à fase adulta integradora do processo natural da evolução: pararam na negação e no protesto… E baseiam essencialmente a sua luta na oposição reducionista entre posse individual e posse colectiva, como se elas fossem necessariamente inimigas na tensão social da vida em desenvolvimento. No entanto, vivem dos dois extremos: são príncipes de esquerda que vivem ao lado de príncipes de direita. Só conheço um caso em que isso não é verdade.

3.Há, a esse respeito, uma história muito interessante. Em resumo, diz assim: um dia, o pai de um desses jovens burgueses do contra, volta-se para o filho e diz-lhe: descobri estas coisas no teu armário (uma máscara do Anonymus e um taco de baseball). Tu usas isto? Sim, às vezes, responde o filho. É que eu precisava disso, diz o pai. Também tenho lido o que tu andas a escrever na internet… O quê? Andas-me a vigiar, pergunta o filho? Isso são as minhas ideias. Eu tenho 27 anos e sou anarquista e de esquerda… Não, não ando nada a vigiar-te, isso é público, está na internet, diz o pai. Mas, olha, convenceste-me… De quê, pergunta o filho? De que tudo isto está errado, diz o pai. Fizeste bem em nunca ter trabalhado. Agora, eu também vou ser anarquista e de esquerda como tu e vou deixar de trabalhar… O quê, pergunta o filho, já muito preocupado? Que história é essa? Não pode fazer isso! O pai é director de uma grande empresa. Era, diz o pai, já não sou mais. Larguei o emprego e mandei toda a gente para… E até já estou a juntar um grupo de amigos para irmos lá partir tudo e gritar: abaixo a opressão, abaixo o capitalismo! Mas, como? Não pode fazer isso, diz o filho… Posso, sim, diz o pai. E já o fiz. E digo-te mais: toda a gente vai sair deste apartamento de luxo e vamos acampar em frente de uma empresa capitalista qualquer… Tu vens comigo? Eu? E onde é que eu vou morar? E o meu carro? E a garagem? E quem paga a minha mesada? E quem paga as despesas da vida que eu faço com os meus amigos e amigas?.. E as minhas férias em Ibiza?...Naquele momento, o adolescente anarquista de 27 anos, que nunca quis trabalhar porque o pai trabalhava por ele, acordou para a realidade e reconheceu que o seu anarquismo era apenas um teatro social de meninos ricos que fingiam ser desfavorecidos e depois se promoviam a seus dirigentes. Adulto em idade, mas imaturo em mentalidade. Nunca assumiu a fase adulta da tensão dialéctica do crescimento humano, que vai alargando o seu campo de consciência à procura da justiça de um mundo em renovação e melhor… Tinha parado ali, contestando o sistema que o sustentava e vivendo dele, mas sem fazer nada para o renovar. Margaret Thatcher definiu-os de forma implacável: “a vida é muito boa para alguns, mas só enquanto durar o dinheiro dos outros”.

Destaque

O problema é quando nunca passam desta fase e vivem sempre contra, pela vida fora, tendendo a profissionalizar-se como dirigentes de grupos ou partidos de protesto.


Autor: M. Ribeiro Fernandes
DM

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23 agosto 2020