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Presos pela ideologia

O título foi extraído de uma resposta que o Professor José Fragata, académico e cirurgião deu ao Expresso. Não li a entrevista toda, apenas o que a publicação digital permite ler a quem não é subscritor da edição online, mas bastou para decidir o tom e o sentido da minha crónica de hoje. Já tinha lido, entretanto, o recorte da crónica de Jeremias da liturgia do XX Domingo do tempo comum e a análise de Fernando Armellini ao mesmo em “O Banquete da Palavra”. Cheguei a pensar titular o texto que apresento aqui de “No fundo da cisterna”, reflectindo mais a leitura bíblica, mas decidi pelo corolário que resulta da reflexão daquele Professor sobre o Sistema Nacional de Saúde. Ao Expresso, o autor expressou-se assim: “O SNS vive uma crise de mudança e de falta de adaptação. E se não está bem, não vai ficar melhor […] A saúde não é pública nem privada. O SNS está preso pela ideologia política. Mesmo quando a oposição a este Governo esteve no poder, não conseguiu nunca uma reforma”.

Em boa verdade, o estado em que se encontra o SNS não é da exclusiva responsabilidade dos últimos governos socialistas. Outros tiveram a oportunidade para o adaptarem às necessidades e não fizeram o suficiente por isso. Talvez por falta de tempo, admito, mas há muito que os bons exemplos espalhados pela Europa poderiam ser inspiradores para os nossos governantes e foram esquecidos. No entanto, deve ter-se presente que no último quarto de século – um pouco mais, na verdade – quem esteve a comandar os destinos do país foi o Partido Socialista, pelo que é a este que podemos e devemos responsabilizar mais. Terá sido a ideologia o factor que mais pesou na tendência para manter na esfera pública toda a estrutura do Sistema, o que não teria sido negativo sob o ponto de vista da gestão se o mesmo conseguisse actualizar-se, dispor dos meios necessários e suficientes, designadamente, humanos, e fosse competitivo, o que, havendo uma organização competente, uma economia de escala permitiria. A realidade é que o Sistema está a dar sinais de ruptura – grave em algumas especialidades –, mais por incompetência política do que por qualquer fenómeno determinístico. O SNS tem profissionais competentes, contudo, insuficientes, o que abre brechas em vários serviços, designadamente, hospitais que o tempo não fechará com novos licenciados em medicina, mas apenas com medidas estruturais de política que só um Governo pode tomar. Aparentemente, o actual Executivo, considerado o mais à esquerda que já houve, teima em não ver o óbvio. Aliciados pelo sector privado, muitos profissionais trocam de patrão – é claro que o vil metal é importante, como as condições de trabalho oferecidas -, sem que haja uma reacção capaz do Governo para os manter, sendo que a situação escava mais fundo a cisterna lodosa onde o SNS está a cair. Os grupos de saúde privados ganharão mais e mais fulgor com as admissões dos profissionais que o Sistema público preparou e especializou, enquanto as unidades públicas se deterioram a olhos vistos. O pior é que o Governo sabe qual é a solução, mas mantém-se irredutível. Quer ou não preservar o SNS? Se a resposta for afirmativa não poderá deixar de melhorar as condições dos seus profissionais, sem prejuízo de estabelecer acordos com o sector privado para que este seja chamado quando os hospitais públicos não conseguirem dar resposta atempada a todos os cidadãos. A saúde não tem ideologia. As maleitas do corpo e da mente tratam-se onde houver recursos capazes. O importante é que isso se admita e se crie o quadro legal. O SNS vingará se os Executivos do país o souberem gerir, com mais ou menos recursos públicos, bastando mão disciplinadora e justiça. Quando faltam médicos de saúde familiar a mais de um milhão de portugueses, quando há listas de espera por consultas de especialidade e para cirurgias, a ideologia não pode condicionar que a situação se altere. E os portugueses têm que exigir que o SNS seja retirado da cisterna para onde o estão a levar.


Autor: Luís Martins
DM

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19 agosto 2022