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Presidentes da República e as conferências de Fafe

Num artigo de 2020 intitulado “The President’s Two Bodies”, Daphna Renan, professora em Harvard, elabora uma visão dual do Chefe de Estado, encarnando uma perceção individual, efémera e outra institucional, mais permanente, distinguindo, assim, o presidente e a presidência. Desde que George Washington incorporou a ideia dessa instituição ainda em formação, existem impulsos concorrentes entre o presidente carismático e a presidência mais impessoal e deliberativa. Essa coexistência é constitutiva de um cargo que abrange aspetos de cada um, cuja intrasistematicidade pode causar desconfortos e tensões no exercício da função presidencial.

Esta posição contextualiza-se nas controvérsias geradas pela presidência de Trump, que o pulitzer David Kennedy apaziguou num painel de 2021 sobre o futuro da presidência, esclarecendo que se há um fio condutor que atravessa a mudança da História é o ritmo e o caráter incomensuráveis dos caminhos evolutivos da incumbência presidencial.

Tal inquietação existirá no sistema presidencialista americano, onde, pelo seu superior estatuto, persevera um feriado designado de dia do presidente. Nos sistemas semipresidencialistas como o português esse desconforto não se manifesta, podendo ter ocorrido durante a I República. Na II República a figura presidencial perdeu importância pela submissão a Salazar e renasceu na III República com a instauração da democracia.

Não é concebível uma república sem o presidente. A sua dignidade constitucional afere-se pela representação da República Portuguesa, pela garantia da independência, unidade do Estado e do regular funcionamento das instituições, com uma legitimidade democrática que lhe é conferida através da eleição direta, constituindo o referencial dos poderes formais e informais dos vários Presidentes.

Neste enquadramento, a primeira surpresa com o anúncio do novel presidente da Câmara Municipal de Fafe, Antero Barbosa, da realização das I Conferências de Fafe, tendo como protagonistas os ex-Presidentes da República, os representantes dos Presidentes falecidos e o atual Presidente, é nunca antes um município, em mais de quarenta anos de poder local eleito, ter tomado tal iniciativa. Tratou-se de uma ideia feliz. Com custos mínimos, logrou engrandecer o concelho, colocar Fafe no radar dos investidores e no mapa dos turistas. Saber da emotiva ligação familiar de Marcelo à municipalidade, fraternizou os concidadãos – ajustando-se à mensagem de Aristóteles que o objeto principal da política é criar amizade entre os membros da cidade – e, num ápice, todos desejam ter um ancestral em Fafe.

A catedral dos ralis passa a acumular com a capital dos presidentes da república. Elogia-se também a sensibilidade para homenagear figuras da terra, como Parcídio Summavielle, ex-Presidente da Câmara e impulsionador dos ralis no concelho, na atribuição ao Rali Montelongo do nome de Carlos Vieira, nascido em Fafe, um dos poucos pilotos portugueses a ostentar os títulos de campeão nacional de velocidade e de ralis e no convite a um homem com fortes ligações ao concelho, Marques Mendes, para moderar as conferências. Tal como Rushmore presta uma homenagem patriótica a quatro presidentes dos Estados Unidos, à escala nacional, foi inaugurado um memorial aos presidentes.

"Omne tulit punctum, qui miscuit utile dulci", seguindo Horatio, impressionou-se tão ilustres personagens com o jantar no paradisíaco Solar da Luz, monumento de interesse municipal com uma fachada deslumbrante, um dos mais belos solares de Portugal, que foi adquirido em 2011 por Carlos Vieira, empresário fafense e com residência também em Braga, em adiantado estado de degradação A casa senhorial multicentenária foi objeto de obras profundas e minuciosas visando a conservação e restauro do edifício, mantendo-lhe a traça exterior e recuperando a originalidade do espaço interior, dos excelsos jardins e do largo pátio que a rodeiam. A capela de 1632 foi deslocada para o pátio exterior e teve a presidir à celebração da missa inaugural D. Jorge Ortiga, então Arcebispo de Braga. Os distintos convidados granjearam da simpatia da família Vieira e ouviram-se apreciações que estavam numa das melhores casas que haviam conhecido.

Revisitando o pensador estagirita, a grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las.


Autor: Carlos Vilas Boas
DM

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3 agosto 2022