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Precisamos uns dos outros

1.Na mensagem para o XXVII Dia Mundial do Doente, que se celebra em 11 de fevereiro, o Papa Francisco lembra precisarmos todos uns dos outros. «Todo o homem é pobre, necessitado e indigente», escreve.

«Quando nascemos, para viver tivemos necessidade dos cuidados dos nossos pais; de forma semelhante, em cada fase e etapa da vida, cada um de nós nunca conseguirá, de todo, ver-se livre da necessidade e da ajuda alheia, nunca conseguirá arrancar de si mesmo o limite da impotência face a alguém ou a alguma coisa.

Também esta é uma condição que carateriza o nosso ser de ‘criaturas’.

O reconhecimento leal desta verdade convida-nos a permanecer humildes e a praticar com coragem a solidariedade, como virtude indispensável à existência».

«Não devemos, diz também, ter medo de nos reconhecermos necessitados e incapazes de nos darmos tudo aquilo de que teríamos necessidade, porque não conseguimos, sozinhos e apenas com as nossas forças, vencer todos os limites».

2.Grande parte da mensagem é o elogio do voluntariado, cujas pessoas «vivem de modo eloquente a espiritualidade do Bom Samaritano».

«O voluntário, diz, é um amigo desinteressado, a quem se pode confidenciar pensamentos e emoções; através da escuta, ele cria as condições para que o doente deixe de ser objeto passivo de cuidados para se tornar sujeito ativo e protagonista duma relação de reciprocidade, capaz de recuperar a esperança, mais disposto a aceitar as terapias.

O voluntariado comunica valores, comportamentos e estilos de vida que, no centro, têm o fermento da doação. Deste modo realiza-se também a humanização dos tratamentos».

3.Referindo-se particularmente ao cuidado a ter com os doentes, o Papa Francisco denuncia a sociedade do descarte e da busca do lucro para salientar que «o único critério de ação deve ser o amor gratuito para com todos, sem distinção de língua, cultura, etnia ou religião».

Exorta a «promover a cultura da gratuidade e do dom, indispensável para superar a cultura do lucro e do descarte».

Falando concretamente das «instituições sanitárias católicas» afirma que estas «não deveriam cair no estilo empresarial, mas salvaguardar mais o cuidado da pessoa que o lucro».

«A dimensão da gratuidade deveria animar sobretudo as estruturas sanitárias católicas, porque é a lógica evangélica que qualifica a sua ação, quer nas zonas mais desenvolvidas quer nas mais carentes do mundo.

As estruturas católicas são chamadas a expressar o sentido do dom, da gratuidade e da solidariedade, como resposta à lógica do lucro a todo o custo, do dar para receber, da exploração que não respeita as pessoas».

4.«O cuidado dos doentes, lê-se também na mensagem, precisa de profissionalismo e ternura, de gestos gratuitos, imediatos e simples, como uma carícia, pelos quais fazemos sentir ao outro que nos é ‘querido’».

5.Infelizmente, na sociedade egoísta e materialista em que vivemos o doente é utilizado mais como fonte de lucro do que visto como um ser humano, fragilizado, necessitado de atenção especial. Há «profissionais» – poucos, mas há – que parece desconhecerem o que é ternura e humanismo. A quem é preciso lembrar, por exemplo, que se não pega num doente como quem pega num saco de batatas.

A saúde é um direito de todos e todos devem ser devidamente assistidos quando a doença lhes bate à porta. Além de ser prestada por profissionais competentes e conscientes, exige-se que estes disponham das condições necessárias para o cabal exercício da sua missão.

Quem gere os dinheiros públicos tem o dever de prestar a este setor a atenção que merece. De mostrar como a pessoa está acima da ideologia.

O doente é sujeito de direitos que lhe devem ser reconhecidos e possui uma dignidade que lhe deve ser respeitada. Sempre. Também em fase terminal. Nunca perde a qualidade de ser humano, devendo ser tratado com humanidade em todas as circunstâncias. Quando, clinicamente, nada há a fazer, há sempre um carinho que deve ser dado.


Autor: Silva Araújo
DM

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31 janeiro 2019