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Povo de intriga, má-lingua e pós-verdade

Mas, nisto de tendência para a morbidez, má-língua e pós-verdade, há por aí muito quem pareça sentir-se bem e, até, gozar com as desgraças alheias e ande a procurá-las, frequentemente, como abutres aos cadáveres; e isto mesmo se poderá constatar na exploração que delas se faz, mormente através de notícias (alegres ou tristes, motivadoras ou desencorajadoras) de amigos e conhecidos.

            Costuma o povo dizer que quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto; pois, neste particular, digo mesmo que há muito quem lhe não acrescente apenas um, mas, no mínimo, uma boa dúzia deles.

            Ora, aqui se dá asas ao boato com toda a sua carga psicológica de autêntica maleita social, transformando a verdadeira solidariedade em solidariedade de cordel; e, em termos práticos, isto resulta assim:

            O senhor Pedrosa, amanuense aposentado de uma repartição pública, deu a coxear da tal jeito da perna direita (e nem de propósito ele que é um trotskista encartado) que teve de recorrer ao hospital local.      E, então, a vizinha do 1.° direito que adora mexericos e cultiva como ninguém a intriga de soalheiro, chaga-se à vizinha do rés-do-chão e segreda-lhe:

            - Não quer saber, vizinha, que o senhor Pedrosa, ali do 3.º esquerdo, está no hospital com um problema numa perna; e parece que é um caso bicudo, ele também sempre sofreu das pernas.

            A vizinha do rés-do-chão, muito dada a bate-papos de esquina, encontra a dona do mercadinho e cochicha-lhe:

            - Olhe que ele há cada uma, dona Joana, não é que o senhor Pedrosa, aquele das políticas, está no hospital para cortar uma perna? A gente nunca pode dizer que está bem.

            Por sua vez, a dona Joana que tem fama e proveito de espalha-brasas e ave de mau agoiro, logo que encontra a cabeleireira Matilde na fila da marcação de consultas no Centro de Saúde, desabafa assim:

            - Já sabe a melhor, dona Matilde, aquele sujeitinho miudinho que mora no 3.º esquerdo e lava a loiça, a roupa e esfrega o chão, enquanto a lambisgoia da mulher vai para o café dar à língua com as amigas, não é que, coitado, está no hospital para cortar ambas as pernas? Agora é que ela vai ficar com uma pesada cruz para o resto da vida; também que se pode esperar de uma mulher daquelas.

            Assim foi passando o tempo e medrando a intriga, a má-língua e a pós-verdade no bairro, onde as coisas se sucedem tão cicla e naturalmente como os dias e as noites; até que, uma bela manhã, o senhor Pedrosa ali regressa com ambas as pernas e o ar mais jovial e natural do mundo (quando muito o ar médico-legal de quem foi operado às varizes).

            Todavia, ainda há uma vizinha que nem quer acreditar no que vê e, a medo, lá vai mimando, na fila da paragem do autocarro, o senhor Pedrosa deste jeito:

            - Ai, coitadinho do senhor Pedrosa, tem um ar tão fraco! Parece que está desenganado pelos médicos, aquilo deve ser mal ruim que lhe deu que nem o quiseram no hospital.

            Pois é, muita sorte teve o senhor Pedrosa em as vizinhas lhe pegarem pelas pernas, porque se lhe pegam pela cabeça, já nem carcaça tinha; que isto de intriga e má-língua de vizinhas sempre foi chão que deu uvas.

            E, pensando bem, qualquer semelhança com a política que se faz por aí, não é pura coincidência.

            O que nos leva a praguejar:

            - Porra, vai cá uma nortada!

            Então, até de hoje a oito.


Autor: Dinis Salgado
DM

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10 maio 2017