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Portugal, país ciclotímico?

Veja-se, por exemplo, como se refere à «indigência mental de um povo absolutamente carecido de faculdades artísticas, a um tempo amorudo e interesseiro, pagão irredutível ainda quando beato, escravo por vício de origem, por hábito histórico e por eterno assentimento grato e conformista».

Estas páginas corrosivas de Rocha Peixoto exprimem o pessimismo agónico que caracteriza em geral os intelectuais portugueses ao longo das últimas décadas do século XIX e dos anos iniciais do século XX e que dimana da consciência obsessiva e atormentada da decadência secular de Portugal e do seu atraso civilizacional relativamente à modernidade europeia oitocentista. A voz de Rocha Peixoto integra-se num coro de vozes maiores em que sobrelevam Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro e Fialho de Almeida e que tem em Alexandre Herculano, o «exilado» de Vale de Lobos, o seu núncio e o seu mestre simbólico.

A história de Portugal, nesta perspectiva, configura-se como um processo de profunda degeneração, sob os pontos de vista político, económico, social e cultural, iniciado em meados do século XVI e episodicamente interrompido por movimentos reactivos de «restauração», de «regeneração» e de «renascença», que se propõem criar novos horizontes de esperança colectiva. O sentimento de miséria histórica e de irrelevância no concerto das nações europeias condena Portugal a depressões flagelantes; os episódios de regeneração desencadeiam ondas de euforia e de exaltação patriótica, que são a compensação fugaz de longas e múltiplas indigências e humilhações.

Rocha Peixoto escreveu as suas amargas páginas sobre o povo português e a sua cultura popular num dos tempos mais conturbados e sombrios da história recente de Portugal – o tempo do ultimato inglês (1890) e o tempo da crise financeira e bancária (1891), que teve consequências devastadoras nos anos vindouros. A morte colheu-o pouco antes da implantação da República, que foi um tempo de exaltação cívica e de esperança na ressurreição da Pátria, mas que, passados breves anos, se revelou como impotente para construir o novo país sonhado.

Quando se aproxima a comemoração do dia de Portugal e de Camões, torna-se oportuno – ou necessário – reflectir sobre esta patológica cadeia de crises depressivas e de falazes optimismos eufóricos que continua a dominar a história de Portugal e a vida quotidiana do povo português. O País tem de romper com o fatalismo desta herança multissecular de crises e de saídas – ou falsas saída – das crises. Portugal tem hoje de enfrentar com realismo e inteligência a sua condição de País pós-colonial. O Império, com as suas grandezas, os seus benefícios, os seus erros e os seus desastres, acabou irreversivelmente. Portugal, como Estado-Nação independente, não pode ficar refém da nostalgia do Império nem cair na tentação de um neocolonialismo irremediavelmente condenado ao fracasso.

A crise da austeridade cega que se abateu nos últimos anos sobre Portugal parece ter terminado. A confiança dos portugueses no futuro foi recuperada. Politicamente, porém, o horizonte da «geringonça» é incerto e por isso embandeirar em arco com os números de algumas estatísticas não é decerto prudente. Tão cega como a crise da austeridade pode ser a euforia da saída do défice excessivo…

O autor não escreve segundo o chamado «acordo ortográfico»


Autor: Vítor Aguiar e Silva
DM

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4 junho 2017