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Por capricho, não

Há coisas que se não entendem muito bem ou há gente que se não entende a si mesma. Atua emotivamente ou por capricho. Por exemplo, há quem tenha dito que a religião católica poderia desaparecer por causa dos abusos de alguns padres denunciados pelo Papa. Nada disso. O povo sabe muito bem distinguir o que é fé, isto é, aquilo que sentem como apelo divino, e o que são homens numa instituição que tentam concretizar essa mesma fé.

Se a fé é o motor de cada um dos que acreditam, então os homens podem falhar, as organizações podem escandalizar porque a fé lá está lá presente como trave mestra e forte da transcendência. Mal comparado, mas comparável em sede de raciocínio, está o PSD.

Quem é verdadeiramente social-democrata, isto é, quem sente em si um personalismo que aponte para uma democracia preocupada com a sociedade, não pode votar noutra ideologia só porque os homens que dirigem o partido se não entendem., por capricho uns, por fome de notoriedade outros. Nada disso deve servir para descrer na social-democracia.

Quando se vota numa ideologia, não se vota nos dirigentes, vota-se na ideologia. A praxis política pode ser boa ou má, pode levar o partido ao sucesso ou não, mas se se está imbuído dessa ideologia, então é nela que se vota e não noutra. É assim que eu entendo o voto consciente.

Então torna-se fácil votar. O País está fácil de entender quanto a ideologias: ou se escolhe a atual maioria de esquerda, sempre na perspetiva de que se está a votar na ideologia que defendem, “tudo para o estado”, ou se vota nos outros partidos pensando que estes defendem a propriedade e o indivíduo do estado .

Na esquerda está o PS de Mário Soares que era social democrata e que hoje, pela mão hábil de António Costa, continua social democrata com cheirinho de esquerda. É um café forte com um cheirinho de aguardente. Pouco adiantou ao secretário-geral do PS anexar o PC e o BE. Se a ideia foi ficar na história como o político que pela primeira vez levou ao poder uma maioria parlamentar de esquerda, ganhou a aposta mas não ganhou o que certamente muito queria: a paz podre sindical.

Aqui enganou-se redondamente porque não só as greves continuaram a fazer-se, embora aqui e ali mais para alimentar clientela e marcar sobrevivência do que para ganhar a luta, a verdade é que nunca se viram tantas greves anunciadas e desfiladas. É igualmente verdade que as há sem que as centrais sindicais as organizem ou apoiem, há-as porque como já aqui disse e volto a repetir, as pessoas organizam-se através da comunicação eletrónica e aparecem com slogans e tarjetas para reivindicarem os seus direitos.

Temos observado que os sindicatos começam a correr atrás destas manifestações em vez de ser os manifestantes a correrem atrás dos sindicatos. Não há mal nenhum nisto; o povo já aprendeu a fazer política sem gurus ou dirigentes. Uns tantos cliques no telemóvel e eles aparecem para marcar presença e dizer o que pretendem. Está a ser assim em muitas partes da Europa e é assim que se organizam manifestações de dimensão considerável nos Estados Unidos da América.

Isto está a mudar e está a mudar porque embora as pessoas deixem de acreditar nas pessoas e organizações que até aqui tinham o monopólio da política contestatária, acreditam no princípio do direito que lhes assiste e fazem disto uma “ideologia e uma fé”. Quem acredita em princípios não deserta só porque os servidores não prestam ou traduzem em ações os princípios norteadores das organizações que dizem servir.


Autor: Paulo Fafe
DM

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21 janeiro 2019