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Ponto por ponto

Uma cidade não se mede pelo seu comprimento e pela sua largura, mas pela amplitude da sua visão e pelo alto dos seus sonhos” Herb Caen - jornalista e humorista americano (1916-1997)

Ponto um - Falemos um pouco da nossa cidade. A cidade do século XXI. Aquela cidade com raizes profundas e mergulhadas na visão imperial romana que se projectava grandiosa além fronteiras. Uma cidade honorificada com o título de Augusta. Quase divina. Braga era uma referência no Noroeste Peninsular. Primaz das Espanhas. Ao longo dos tempos foi-se construindo e se reconstruindo, mas sempre marcante no valor cultural, administrativo e religioso. A cidade teve a dirigir os seus destinos homens com visão e com estofo. Homens agarrados à sua cidade.

À luz dos tempos de agora cometeram-se erros clamorosos. Um deles, o derrube da muralha dinisina em 1905. Ficaram, entretanto, para mostrar aos presentes uns pequenos panos dessa muralha e a torre de menagem que se ergue altaneira ao pé da Rua do Castelo. Estas decisões agressivas e irreversíveis não podem, nem devem ser tomadas de ânimo leve. Por capricho ou por razões mais obscuras. Foi o que aconteceu, nos tempos de agora, com o desarranjo brutal do Campo da Vinha. Ou com a construção da eira da Avenida Central. Para não falar da densidade cimenteira que se implantou desgraçadamente nas urbanizações novas, com arruamentos medievais e com pleno prejuízo para as necessárias zonas verdes. Esse foi o tempo de obscuridade na gestão camarária. Tempo das megalomanias construtivas, dos “esqueletos no armário” e um pouco do “quero, posso e mando”. É um tempo do passado recente que deveria merecer reflexão apurada aos autarcas de agora.

Ponto dois - Novo autarca e uma outra realidade. Apareceu Rio com propósitos bem definidos e com uma estratégia arrebatadora. Em vários domínios. Na realidade, e é isso que importava, incrementar: menos cimento e mais reabilitação. Mais transparência e maturidade nas decisões. Mais responsabilização e mais trabalho partilhado. Sete anos depois o que temos para avaliar: muito anúncio e muita festa para animar a malta. Festinhas por tudo e para nada. Para alimentar a indústria da diversão e a economia das esplanadas. Ideias geniais para uma estratégia económica de impacte nacional, nem por isso. Cativar turismo, também não. Era bem preciso criar e promover condições amigas para o desenvolvimento de actividades geradores de emprego de qualidade e de estabilidade laboral com auto-suficiência financeira. Houve, de facto, muita movimentação nos espaços públicos. Espaços ocupados pelas barracas e pelas barraquinhas. Até à exaustão. No final, até parece que a estratégia de Rio se revê na máxima romana: “pão e circo”. E o pessoal gosta, mesmo que o pão seja escasso e bolorento.

Ponto três - Ainda não se resolveu o grande desígnio eleitoral de Ricardo Rio: a construção do Parque das Sete Fontes. Sete anos depois, a negociação com os privados não dá sinais de se fechar. Maus negociadores? Finca-pé das partes? Afinal, o que esgana o acordo? Certamente, dinheiro. Não acredito que é por falta de dinheiro, pois ouve-se amiúde gastos e investimentos de milhões nesta ou naquela obra. Portanto, para outras coisas, vai aparecendo. Tudo é uma questão de prioridades e de bom senso. É o que tem faltado à edilidade.

Ponto quatro - A cidade precisa de um autarca visionário e com arrojo. Um autarca rigoroso e extremamente exigente. Um autarca que agarre a cidade e o concelho para lhe dar um outro presente e poder sonhar com outro futuro. Quem em sete anos de mandato não deixou marca indelével no poder, não será no último mandato que a deixará.

Eu acreditei. Muitos e muitos bracarenses acreditaram que Ricardo Rio era o homem certo para efectuar mudanças significativas no paradigma de gestão camarária. Dei o meu apoio e o meu contributo desinteressado nas candidaturas de 2009 e 2013. Rio mostrava irreverência, determinação e capacidade mobilizadora. Em 2013, conseguiu, finalmente, retirar o poder a um partido que caía de velho e de caruncho. Muita esperança pairava no ar e na mente das pessoas. Confiança havia a rodos. Era preciso sacudir 37 anos de “absolutismo” e dar ao Município uma lufada de ar fresco que contaminasse tudo e todos. Uma lufada que viesse acompanhada com outras ideias e com outra garra. Com outra disponibilidade e com outra abertura.

Sete anos depois, nota-se algum desencanto, alguma apatia e conformismo de sobra. Até para se homenagear figuras proeminentes da cidade, como o caso da construção do monumento a D. Diogo de Sousa, é um enorme problema. Muitos anúncios e poucas execuções. Assim, não dá.


Autor: Armindo Oliveira
DM

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9 agosto 2020