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Põe-te a a pau ó Zé

Claro que já tivemos governos minoritários com apoios parlamentares pontuais e estratégicos, como igualmente já tivemos governos de iniciativa presidencial; e a governação do país lá seguiu em frente, embora, muitas vezes, aos soluços e aos tremeliques, como vai acontecendo atualmente com a geringonça governativa. 

Mas, o curioso é que esta arrancada de António Costa, foi cozinhada mesmo antes de conhecidos os resultados eleitorais, com os parceiros de apoio parlamentar: Bloco de Esquerda (BE) e Partido Comunista Português (PCP); e, mesmo engolindo sapos e salamandras vivos, BE e PCP rejubilam com tal solução, porque é uma forma de afastar a direita do poder; e, sobretudo, conseguem andar em campanha eleitoral permanente nos media e ter acesso privilegiado aos corredores da governação. 

Pois bem, quem ficou mal na fotografia foi Passos Coelho que, mesmo ganhando as eleições, acaba por ser o chefe da oposição; e, ocupando, assim, caso único na vida parlamentar, o lugar de deputado; depois, nesta posição subalterna, dificilmente consegue arrancar para uma oposição vitoriosa contra o Partido Socialista (PS) nas eleições que se aproximam; porque, se Passos Coelho tem perdido as eleições, com certeza, era forçado a demitir-se e não passava por tamanha humilhação. 

Mas, como este cenário não se concretizou e muita e histórica é a sua teimosia, o Partido Social-Democrata (PSD) vive uma orfandade esforçada, mesmo com paternidade ativa; e só provavelmente após as eleições autárquicas de outubro as pedras se movimentarão no xadrez político dos social-democratas e alguns candidatos à sucessão, perdendo o medo, desenterrarão o machado de guerra, disputando a liderança; aliás, neste momento, já são visíveis movimentações nas hostes do PSD dirigente. 

Agora, avaliando a governação de António Costa, apesar de alguns êxitos pontuais (descida do défice e queda do desemprego), há, pelo menos, duas coisas que falham rotundamente: o aumento constante da dívida e a manutenção da austeridade, apesar da promessa que solenemente fez na sua campanha eleitoral e inscrita estava no seu programa de governo. 

E o que se avizinha é desencorajante: os trabalhadores da administração pública e os pensionistas a quem foram dados uns rebuçados acabam de ver que tal guloseima estava envenenada, pois já pagam mais impostos, não há dinheiro para baixar os escalões do IRS, os combustíveis não param de aumentar e a Função Pública não terá aumentos salariais até 2020, pois as progressões nas carreiras continuarão congeladas. 

Ora, se a austeridade do governo de Passos Coelho tanto foi criticada pelos partidos da geringonça, que grande lata estes exibem ao mantê-la e, até, aumentando-a; e a isto se chama fazer retórica de esquerda, mas exibindo uma prática de direita na governação; e que não passa de uma receita governativa de mais do mesmo, pois a economia não avança, o consumo estagna, a pobreza aumenta e as reformas estruturais continuam na gaveta; apenas, vai valendo o enorme afluxo turístico que, afinal só existe porque os países verdadeiramente líderes desta atividade económica perdem, no momento, procura devido a problemas com a segurança de pessoas e bens, provocados pelos extremistas islâmicos. 

Afinal, se tivermos os olhos bem abertos e a cabeça bem fria, facilmente concluímos que tudo como dantes, quartel-general em Abrantes; e o que nos leva a avisar: 

– Põe-te a pau, ó Zé, antes que te esfolem vivo. 

Então, até de hoje a oito.

 

Autor: Dinis Salgado
DM

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3 maio 2017