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Pesquisar o desconhecido e acordar no deserto florido

A vida do ser humano na sua diversidade profissional no passado recente, por vezes pluricontinental, transmite experiências e observações desconhecidas, tendo em vista analisar situações ligadas à investigação em diversas áreas ou mesmo conhecer populações, a sua relação interétnica e perscrutar eventuais investimentos para desenvolver regiões inóspitas, pouco conhecidas, sem meios de comunicação ou então muito precários.

O Planeta Terra é um todo, analisado e interpretado nas suas diversas vertentes das mutações climáticas, da biodiversidade, da etnografia e da vivência comunitária, quantas vezes adaptada às condições locais de vida e à sua subsistência.

A missão profissional transcontinental, em determinadas profissões, permite observar, viver e interrelacionar-se com povos de diversas etnias ancestrais, contribuindo para compreender a evolução do ser humano, desde a origem da vida até à actualidade. Este conhecimento genético abrangente conduz à interpretação antropológica do ser humano ao longo de milénios.

Esta vivência enriquece a investigação multidisciplinar e contribui para alicerçar o conhecimento dos investigadores ligados à antropologia, à etnografia e às ciências da terra, permitindo viver momentos inesquecíveis da vida.

Em missões de pesquisa e prospeção mineira, na área diamantífera, caminhando no deserto de Namibe, no Sul de Angola em 1964, para além de disfrutar da biodiversidade da região, após suportar temperaturas superiores a 40ºC, e seguindo através das dunas, em planalto desértico, salpicado de quando em quando pela Wellwichia Miralilis e de pequenos afloramentos rochosos, com vegetação típica do deserto, atingiu-se o local para acampar na povoação de Virei, onde se descansou.

Durante a noite choveu, o que é muito raro neste planalto desértico, e ao acordar deparou-se com um cenário de beleza espetacular e um colorido indescritível, pois todo o espaço estava coberto de flores, contrastando com o anoitecer do dia anterior no deserto.

Num outro percurso na Namíbia, em 1967, já no deserto de Kalahari, com a finalidade de observar e acompanhar a exploração de diamantes no offshore da plataforma marítima, na foz do rio Orange, próximo da povoação de Oranjemund, cuja deslocação foi num avião bimotor Cessna, aterrou-se na povoação de Springbock, onde existe um clube de rugby conhecido a nível mundial.

Springbock situa-se em pleno deserto do Kalahari, num desfiladeiro profundo, resultante de um abatimento geológico, onde as condições climatéricas são imprevisíveis, dificultando a vida à população local e onde o avião aterrou com certa dificuldade.

Ao aterrar só se viam afloramentos rochosos sem vegetação, excepto diversas variedades de catos, onde é raro chover e aqui se ficou instalado. Nessa noite choveu e ao acordar deparou-se com um idêntico espectáculo de uma beleza extraordinária e inarrável – um jardim florido, com diversas cores, cobrindo o terreno rochoso e arenoso típico do deserto.

Nesse dia tivemos ainda outra surpresa, quando chegamos ao local de exploração em Oranjemund, próximo da foz do rio Orange, deparamos com milhares de pescadas nas vizinhanças da costa, pois ali passava a corrente fria do oceano Atlântico e não havia barcos de pesca industrial.

É por isso que as dificuldades enfrentadas então, na penetração do sertão africano, em regiões inóspitas e praticamente despovoadas ou ocupados por etnias em vias de extinção, transmitiam a realidade da natureza desconhecida e rica em momentos inesquecíveis ligados à vida primitiva do ser humano e à natureza na sua originalidade.


Autor: Bernardo Reis
DM

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3 agosto 2020