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Percepção ou realidades

“Na política não há amigos. Há interesses e conveniências”. Isto será uma percepção? Ou uma realidade? Em todo o caso, é este o cenário cru que nos é apresentado. E não há volta a dar. Numa linha concomitante, aceitamos, de braços caídos, que os políticos do poder sejam os donos disto tudo. Isto será uma percepção? Ou uma realidade? Noutra órbita, a Comunicação Social está amansada e os comentadores avençados controlados, daí, pouco se poderá fazer para mudar o rumo da marcha lenta que nos pode conduzir para o sítio de costume. Isto será percepção? Ou uma realidade? Verifica-se, de caras, que quem está no poder exerce esse poder praticamente em roda livre. A beneficiar e a colocar os seus. A dizer calinadas como aquela do algoritmo dos incêndios. Para justificar o injustificável. Isto será percepção? Ou uma realidade? 1 - Este governo especializou-se em ajustes directos. Não serão os ajustes directos, um disparate democrático? Um acto de prepotência e de falta de respeito? E de nepotismo? Os políticos procedem assim com todo o desplante do mundo, quer na contratação de pessoal (boys), quer nos negócios. Nos tais bons negócios que a gente sabe. Sempre ajustes directos, às vezes repartidos, para não serem escrutinados. Para passarem despercebidos. Isto será percepção? Ou uma realidade? Estas práticas têm que acabar. Para bem da democracia e da transparência. Para bem da confiança no regime. Não deveria ser assim. Pelo menos em democracia, não fosse este o regime da igualdade de oportunidades. E da transparência e da responsabilidade. E também da Justiça. Da Justiça, sim. 2 - Entre as muitas justiças, a Social. Justiça Social, sempre um conceito ambíguo, perfumado, bem enrodilhado e demagógico. Quando se fala em Justiça Social vem logo ao cima, por apropriação indevida, a esquerda a querer tomar conta deste vector democrático. “É nossa e só nossa”. - dizem eles, os extremistas, assim, abertamente. Também os outros. Os mais moderados. Até os outros, os assim-assim. Mas todos arrogantes: Fomos nós que a criamos, somos nós que a incrementamos. Somos nós que a aplicamos e a praticamos. Os outros, “os malditos” querem a pobreza, a injustiça, a penúria. E, claro, a austeridade. Isto será percepção? Ou uma realidade? Com tanta Justiça Social na boca e com tanta paixão à causa ainda há, ao fim de sete de socialismo, mais de dois milhões de pobres. Não percebo! Com a esquerda, as desigualdades ainda estão mais desiguais. Mais distantes. Um país cada vez mais desigual. Talvez o mais desigual da UE. Por isso, não basta abrir as goelas e proclamar por mais Justiça Social. É preciso outra abordagem. Outra coragem. Outra prática. Outras políticas. 3 - Ainda estou por saber concretamente o que é Justiça? Já dizia a minha saudosa mãe na sua ignorância “canudal”, mas sábia pelos cadernos multidisciplinares da vida. Questionava-me muitas vezes: “O que é a Justiça?” E eu ficava calado. Pensativo. Até desarmado. Afinal, o que é a Justiça, digo agora eu? Este valor da vida, este cimento de um regime sério, esta necessidade que alimenta um viver com dignidade, esta garantia do Estado de Direito tornou-se redutor, imperceptível, vazio. Tornou-se coisa feia. E até vergonhosa. Foram divulgados estudos de percepção de corrupção. Comportamentos desviantes na magistratura. Há juizes que se vendem. Há procuradores que se vendem. Há advogados que se vendem. A Justiça vende-se e está em saldo. Um facto que arrepia. Que incomoda. Que revolta. Há, contudo, juizes a denunciar com coragem estas vergonhas. Ainda bem. É preciso desnudar estas anormalidades bem denunciadas por juizes escrupulosos. Mas, não chega. Não chega denunciar e fazer estudos. É preciso limpar. É preciso retirar a sujidade. É preciso separar o trigo do joio. Para bem da Justiça. Para bem da democracia. Para bem do país. 4 - Agora, a Justiça Social. Volto a colocar a questão da minha mãe com uma nuance: “O que é a Justiça Social?” Será fazer a distribuição dos recursos pelos mais necessitados? Será distribuir esses recursos por todos como acontece com os livros escolares, por exemplo? Será premiar quem trabalha, quem se dedica, quem se incomoda com o país? Será reconhecer o mérito como factor imprescindível para a mudança do estatuto social? Será carregar com impostos quem produz riqueza? Será a ideologia a comandar os destinos das pessoas? É tão lindo falar de Justiça Social! Se não é?!
Autor: Armindo Oliveira
DM

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28 agosto 2022