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Para uma simbólica do pão (II)

Depois de, na semana passada, termos apresentado alguns dos significados simbólicos do pão, no Antigo Testamento, aqui deixamos dados que nos permitem falar de idêntica e não menos rica simbólica, no Novo Testamento. Por razões óbvias, cingimo-nos a alguns dos textos que falam do pão, deixando de lado toda a vasta e rica temática do banquete com que a Escritura sugere a alegria e a plenitude da salvação.

Começa por ser sugestivo o nome da localidade onde Jesus nasce: Belém (Mt 2, 1; Lc 2, 4), palavra hebraica que significa “casa do pão”. Não deixa de ser estimulante pensar que aquele que ali nasce tenha decidido ficar entre nós na espécie do pão.

No início da sua missão, Jesus é posto à prova. A primeira tentação tem a ver com o pão (Mt 4, 3-4; Lc 4, 3-4) que é aqui, tal como no Pai Nosso (Mt 6, 11; Lc 11, 3), símbolo do alimento quotidiano que a Deus se pede e do tentador se recusa. Sem dela desmerecer, a importância do pão é por Jesus relativizada: “nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4, 4; Lc 4, 4, citando Dt 8, 3).

De sentido profundamente simbólico é também a multiplicação dos pães e dos peixes que, em Mateus e Marcos, aparecem em duplicado (Mt 14, 13-21; 15, 32-39; Mc 6, 34-44; 8, 1-10). Trata-se de textos que apontam para a Eucaristia, como o sugerem as palavras usadas: tomou os pães, pronunciou a bênção, partiu-os e deu-os... Nos dois evangelistas referidos, estes relatos abrem e fecham uma unidade textual, a “secção do pão” (Mt 14, 13 – 15, 39; Mc 6, 30 – 8, 26), em que Jesus usa o termo “pão” para se referir às suas graças (Mt 15, 26; Mc 7, 27) e uma mulher cananeia responde-lhe com o termo “migalhas”, designando a mesma realidade (Mt 15, 27; Mc 7, 28).

É sobretudo no relato da Eucaristia que o pão ganha uma força e espessura simbólicas inauditas: “Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: ‘Tomai, comei: Isto é o meu corpo’” (Mt 26, 26; Mc 14, 22; Lc 22, 19; 1 Cor 11, 23-24). Se a estes textos acrescentarmos quanto Jesus afirma, a propósito, no “discurso do pão da vida” (Jo 6, 22-71), não resta dúvidas acerca do que temos vindo a afirmar. Tomados habitualmente como sinais de comunhão, amizade e intimidade, o pão e o vinho remetem agora também para a carne e o sangue de Jesus, para a síntese da sua existência. Se comer e beber sugerem a assimilação que sustenta a vida de qualquer ser humano, Jesus vai mais longe ao afirmar claramente que só Ele, pão vivo descido do Céu, é garantia de vida eterna (Jo 6, 51.54).

O alcance simbólico do pão faz-se notar também no relato de Emaús, onde a “fração do pão” aponta necessariamente para a Eucaristia (Lc 24, 30.35), sacramento em que o Ressuscitado abre os olhos aos crentes para que O descubram invisivelmente presente. O mesmo termo é usado em At 2, 42, para falar de uma das assiduidades dos primeiros cristãos, essencial na sua vida e afirmação identitária.

Por último, é desafiante a interpelação de Paulo: “Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único pão” (1 Cor 10, 16-17). É “porventura a mais antiga e singela evocação da Eucaristia, que então se chamava eulogía, isto é, ‘Bênção’” (A. Couto, Quando Ele nos abre as Escrituras..., p. 320). O que Paulo pretende sublinhar é que a partilha do alimento gera a desejada unidade que contrasta com as divisões existentes entre os Coríntios (1 Cor 11, 17-26).

Sem qualquer pretensão, creio que quanto foi apresentado basta para se perceber que o pão marca presença em toda a Escritura e, na variedade das suas expressões, afirma-se como um símbolo de enorme espessura de significado, dada a sua força e carga simbólica.


Autor: P. João Alberto Correia
DM

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10 agosto 2020