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Para memória passada…

Vivemos a prazo. A “obsolescência programada” é um dos sintomas do mal do século. Os equipamentos que se tornaram (in)dispensáveis no nosso quotidiano ficam obsoletos ou não-funcionais em meia dúzia de anos, quando não em meses. Antes, uma máquina de lavar podia durar décadas. Hoje, tem uma esperança média de vida entre seis e nove anos. O mesmo se passa com os telemóveis, computadores, impressoras, baterias, automóveis e até mesmo lâmpadas incandescentes ou meias de nylon, entre muitos outros produtos nos escombros dos quais se empanturra a sociedade de consumo. A obsolescência é programada pelos fabricantes para forçar o cliente a adquirir o último modelo do produto ou actualizar o equipamento, recorrendo a um conjunto de técnicas que reduzem deliberadamente a sua robustez e/ou eficiência. Estima-se assim que cerca de 40 milhões de aparelhos que avariam anualmente em França não são reparados, devido aos custos do conserto ou à inexistência de peças/componentes de substituição, aos quais se acresce a incúria dos utilizadores. Quase todos – países, empresas e particulares – temos consciência ecológica, desde que não colida com os nossos interesses e conforto pessoal. Governos e União Europeia tomam medidas avulso, mas somos incapazes de pôr em prática uma política concertada e eficaz que ponha cobro a esta aberração civilizacional. Obcecados pelo consumo, também não educamos as gerações vindouras a ter memória e a preservar o património – seja ele natural ou cultural –, cingindo-nos quase sempre a comemorações de cariz folclórico e alto teor ideológico. Nesta matéria, as iniciativas mais válidas partem amiúde de particulares, agremiações e núcleos associativos sem qualquer fim lucrativo. Quando aparece obra feita, então chegam as televisões e os governantes para a fotografia. No início, quando era preciso apoiar o projecto, todos assobiavam para o lado. Claro, nem sempre é assim, mas andamos lá perto… Não educamos as nossas sociedades. Desvalorizamos a história, a filosofia, as ciências humanas em geral. Somos cada vez mais governados por tecnocratas e políticos que não sabem que uma metáfora pode mudar o mundo, que nunca viram um pintainho a sair da casca, nem acompanharam o moroso crescimento de uma árvore. A quem não se ensinou o valor de uma lágrima, de um abraço, de uma mão estendida ou de um pedido de desculpa. Perdemo-nos em rankings. Não educamos para os valores ou então só para alguns nos quais se revê uma certa elite. Não temos memória. A propósito da cobertura jornalística dos incêndios, escrevia esta semana Eduardo Cintra Torres, “no comentário, usa-se muito a expressão jurídica para memória futura. Eu preferiria que no jornalismo português, em notícias e comentários, houvesse mais memória passada. Sobre o que aconteceu. Factos. Sobre o que se disse e escreveu. (…). Não temos nos media memória passada porque o passado é perigoso”. Não temos mesmo memória passada. E temos medo do silêncio. Não sabemos contemplar. Perdemos o dom do espanto. Tinha prometido a mim mesmo não escrever sobre a tragédia dos incêndios que este ano assolou o nosso país, tanto se tem falado sobre o assunto. No passado domingo, quando via Braga e o país a arder, veio-me a memória que – nós, a maioria dos governantes e dos governados – não temos memória…
Autor: Manuel Antunes da Cunha
DM

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21 outubro 2017