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Pananimalismo – Uma corrente perigosa

Na noite das legislativas, o PAN foi a grande surpresa entre os pequenos partidos: duplicou o número de votos, passando de 74.752 para 166.854 e quadruplicou o número de deputados, passando de um para quatro. É agora a quinta força política nacional, ganhando direito a constituir um grupo parlamentar.

Este rápido e sensacional sucesso de um partido político fundado há uma dezena de anos, mas apenas inscrito oficialmente no Tribunal Constitucional em Janeiro de 2011, poderia, numa primeira e mais simplista análise, ser atribuído à sua preocupação com a ecologia, com a defesa dos animais e com as alterações climáticas.

Porém, uma reflexão mais fina e profunda leva-nos a uma conclusão deveras alarmante – o animalismo do PAN está intimamente ligado à crise da família e dos valores que lhe estão associados.

Num lúcido texto, publicado no Expresso online, em 2019-10-04, Henrique Raposo discorreu sobre a solidão e a pequenez das nossas famílias e do vazio criado no seu seio, para explicar como e porquê esse vazio é preenchido por cães e gatos. Escreve ele: “Numa sociedade de filhos únicos como a nossa, não há irmãos, não há primos. Mas há cães e gatos.

Se não há crianças, também não há netos. Mas há cães e gatos. O PAN vem desta absurda solidão familiar que se vive em Portugal, não vem da ecologia. Já agora, os cães também ocupam o vazio dos divórcios (segunda taxa mais alta da Europa)!”

Não posso estar mais de acordo: a decadência e a fragmentação da família levam a uma humanização dos animais e a que se instale na sociedade portuguesa, como aliás em muitas outras sociedades ocidentais, uma perigosa filosofia que atribui igual importância às formas de vida animal e humana.

Com todo o respeito pelos animalistas, não posso compreender nem aceitar que se neguem às pessoas cuidados e protecções que se reclamam para os animais.

Respeito e defendo o bem-estar e a liberdade dos animais. Mas não advogo para estes um estatuto de igualdade em relação à pessoa humana, cuja dignidade e natureza reivindicam um tratamento diferenciado e superior, consagrado, de resto, pelo direito natural e plasmado nas constituições e leis universais.

O perigo da instalação de uma nova tirania do orgulho animal foi, aliás, muito bem retratado por George Orwell, no romance “O Triunfo dos Porcos”. Nesta célebre fábula, o autor relata a revolução dos animais (porcos) da quinta do Senhor Jones, a expulsão deste da sua propriedade, o progresso da quinta, a lista de comissões para a elaboração de programas de desenvolvimento social, educação e formação e o orgulho dos porcos na sua auto-gestão.

Mas, igualmente, como, com o passar dos tempos, os porcos se deixaram corromper pelo poder e como, sob o comando do porco Napoleão, passou a ser imposto um princípio novo: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”.

Ora, esta história serve de metáfora para condenar qualquer tipo de totalitarismo ideológico, seja ele político ou simplesmente filosófico.

Eis, caros leitores, porque também eu julgo oportuno denunciar o inquietante perigo de uma corrente animalista, ainda que matizada pelas bandeiras da defesa das vítimas de violência doméstica e da valorização do trabalho, recentemente incluídas no programa eleitoral do PAN, a par da igualmente perturbante ideologia da igualdade de género.

E porque considero fundamental para a defesa do conceito estratégico nacional a urgente adopção de políticas públicas estruturais que favoreçam a família e combatam a quebra demográfica e o envelhecimento da sociedade.


Autor: António Brochado Pedras
DM

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11 outubro 2019