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Os primeiros apóstolos de Cristo tidos por seita esotérica

Outra das injustas qualificações de Harari quanto à história e identidade cristãs tem a ver com a subversão concetual do magistério dos primeiros apóstolos de Jesus. Com efeito, na obra já aqui tantas vezes citada, Sapiens, sustenta a páginas 256: «O grande avanço (da missionação) ocorreu com o cristianismo. Esta fé começou com uma seita esotérica judaica, que procurava convencer os judeus que Jesus de Nazaré era o messias havia muito esperado.» No desenvolvimento desta tese surpreendente, acrescenta, mais à frente: «Numa das mais estranhas reviravoltas da História, esta seita judaica esotérica apoderou-se do poderoso império romano. […]Quando Constantino subiu ao trono, em 306, o cristianismo era pouco mais que uma seita esotérica oriental.» Com estas afirmações, o autor demonstra um completo desconhecimento das origens do cristianismo e uma dramática incompreensão da natureza intrínseca de uma religião instituída por Deus. Comecemos, pois, por desmontar o seu lamentável equívoco, fazendo um pequeno exercício de semântica, com o intuito de clarificarmos os conceitos de seita e esoterismo. O primeiro dos vocábulos deriva do latim secta, que significa, entre outras aceções, linha de conduta, partido, escola filosófica, seita religiosa e bando de gatunos. Daqui se infere que uma seita se rege por um conjunto de princípios e valores obrigatoriamente adotados pelos membros que dela façam parte. Ora, a identificação com um ideário comum, qualquer que ele seja, implica uma organização normalmente hierarquizada para o controlo da ordem interna do grupo e para a defesa da ortodoxia vigente. Todas as seitas instalaram as suas atividades, religiosas ou não, em castelos, lojas e templos de culto, submetidas a exigentes regras de secretismo, cuja admissão obrigava os candidatos a uma apurada iniciação no mundo das ciências do oculto. Já o esoterismo é uma doutrina do universo ocultista, geralmente cultivada num círculo restrito de discípulos com qualificações específicas em domínios da experiência sobrenatural, cujos conhecimentos não devem ser vulgarizados, sob pena de desintegração da ordem corporativa e hermética que lhe garante igualmente a unidade interna. O seu ensino foi praticado por várias escolas da Grécia antiga, e ainda hoje tem adeptos na contemporaneidade. Ora, nada disto aconteceu com os apóstolos de Cristo. Não só não se organizaram numa seita, como não desenvolveram quaisquer planos de fundação de escolas esotéricas. Primeiro, foram escolhidos e ungidos por Cristo, sem nenhum tipo de iniciação nas ciências do oculto, depois, foram abençoados com o fogo do Espírito Santo, para que compreendessem os idiomas dos povos que estavam submetidos pelo império romano. Como enviados que eram, anunciaram a Boa Nova em África, Ásia e Europa, continentes então dominados pelo paganismo: «Eis que Eu vos envio como ovelhas para o meio dos lobos. […] Sereis levados perante governadores e reis, por minha causa, a fim de serdes testemunhas para eles e para as nações.» A diáspora apostólica levou Pedro e Paulo a Roma, onde foram martirizados; Tiago Maior a Espanha, sendo todavia decapitado em Jerusalém, cidade da qual Tiago Menor era bispo e onde foi supliciado por judeus refratários à mensagem de Cristo. Por sua vez, André pregou e foi morto no Próximo Oriente; Simão, o Zelote, andou pelo Egito, Mesopotâmia e Pérsia, acabando, segundo a lenda, cortado ao meio por um serrote; Marcos fundou a igreja de Alexandria, gérmen do atual cristianismo copta; Tomé viajou para a Índia, tendo sido trespassado pelas lanças de brâmanes fanáticos do Malabar; Filipe foi crucificado na Frígia... Já o apóstolo João terminou os seus dias na ilha de Patmos, em pleno mar Egeu, onde recebeu as revelações que lhe possibilitaram escrever o Apocalipse, já no tempo do imperador Nero. As Sortes Apostolorum, impressas nos mapas-múndi dos Beatos do séc. X ao XIII, que tiveram ampla divulgação por toda a Idade Média, dão conta desta dispersão dos primeiros apóstolos do cristianismo, porque a missão que lhes havia sido confiada fora a de proclamar o anúncio da Nova Aliança de Deus com os homens: «Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei o que vos servirem, curai os doentes que nela houver. E dizei ao povo: “O Reino de Deus está próximo de vós!”». Portanto, pelas Sortes Apostolorum se prova – se não bastassem já a narrativa dos Atos e toda a tradição associada à primitiva evangelização – que os apóstolos não foram ocultistas; pelo contrário, abriram-se ao mundo e não o temeram. Por último, comento uma parte das citações vertidas no início deste artigo, onde Harari manifesta a sua estranheza pelo facto de uma «seita judaica esotérica» se ter apoderado do poderoso império romano. Também aqui o autor não procurou encontrar uma explicação plausível para a surpreendente «reviravolta», que fez com que Roma abandonasse o culto dos imperadores e abraçasse o culto de Jesus Cristo. Se fosse crente, talvez aceitasse a conversão de Constantino como um sinal de Deus, a pedido de sua mãe, Santa Helena, que ao tempo da miraculosa batalha de Ponte Mílvio era uma fervorosa cristã. Mas se Harari não acredita em Constantino, nem na inscrição sobrenatural In hoc signo vinces, nem na invenção do lábaro cristão, nem na derrota de Majêncio, nem na derrocada da ponte Mílvio, é sinal de que não aceita o primado da vontade de Deus. E, sendo assim, não admira que considere estranha a «reviravolta» religiosa do poderoso império romano.
Autor: Fernando Pinheiro
DM

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6 março 2021