1. Nas suas aulas de “Filosofia da História”, Hegel, na linguagem do tempo (século XIX), divisava uma progressão do espírito da história do Oriente (onde tem a sua infância) para Ocidente (onde chega à maturidade): "A História mundial viaja de Oriente para Ocidente; por isso, a Europa é o fim absoluto da história, tal como a Ásia é o começo". E corrobora tal progressão, entre outras, por esta característica: "os orientais sabiam que apenas um (o déspota) é livre, os gregos e romanos que alguns são livres, ao passo que nós sabemos que todos, de maneira absoluta, ou seja, como humanos, são livres", continuando, sobre o Oriente: "não se encontra aqui o solo da liberdade, do pensamento livre, mas o solo da vontade despótica, casual e arbitrária, e da vontade, a ela contrária, passiva até ao mais profundo [...]. O déspota leva a cabo as suas extravagâncias [...]. Só no Ocidente surge a liberdade; o pensar entra aí em si, torna-se pensar universal, e o universal torna-se assim o essencial" – lê-se na sua obra “Lições sobre a Filosofia da História” (póstuma, 1837).
Ao invés, Edward W. Said, no livro “Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente” (1973), quis mostrar que tal construção teórica visava a diferenciação do Outro, para mais facilmente o dominar. Said recorre a um conjunto de discursos ocidentais, vários e variados, da literatura à política e à ciência, interpretando-os segundo a criteriologia da dualidade “poder-saber” de Foucault, concluindo que os ‘orientais’ são vistos como “bárbaros”, onde a cultura foi muitas vezes o respaldo do colonialismo. Said é incisivo: "Oriente não é apenas adjacente à Europa; é também o lugar das maiores, mais ricas e mais antigas colónias europeias, a fonte de suas civilizações e línguas, o seu rival cultural e uma das suas imagens mais profundas e mais recorrentes do Outro. [...] O Oriente é uma parte integrante da civilização e da cultura material europeia".
Embora afastadas no tempo, referi estas duas obras como paradigmas de visões distintas, mas uma torrente de livros foi escrita na defesa de uma e de outra posição.
2. A palavra Ocidente – como Oriente – está por todo o lado, das notícias do quotidiano aos mais díspares comentários políticos e económicos; mas, se o termo é o mesmo, veicula tantos sentidos que perturba a comunicação. Se ‘ocidente’ é indicação útil do posicionamento cardeal no espaço, ou a direcção para onde o Sol se põe, alude também a uma região geográfica (Europa Ocidental), a uma unidade histórica cultural (o Iluminismo), a uma entidade económica e política (Europa, Estados Unidos, Canadá); tanto é uma vasta Região (Europa, América, ou ambas), um sistema económico (capitalismo), um modo de vida, uma cosmovisão, mas trata-se sempre de uma representação, no intuito de interpretar o que acontece. O filósofo Roger-Pol Droit, em “O que é o Ocidente? (2008)”, mostra ainda como "o desenvolvimento da crítica e da análise permite o crescimento da ciência e, por sua vez, o progresso científico intensifica o exame racional das tradições, crenças, costumes". Sem dúvida, um traço distintivo da ‘ocidentalização’ é a “ideia liberal”, isto é, de levar a um modo de vida em que são promovidos valores como a liberdade individual, o espírito crítico, a separação entre política e religião, a igualdade da mulher, em suma, os direitos humanos, como valores universais e susceptíveis de aplicabilidade em todas as sociedades.
3. E porquê agora o Ocidente? A guerra devastadora e cruel que Putin declarou à Ucrânia, que só deixa atrás de si morte e cinzas, fez ressurgir o tema; a grande ameaça para o sonho imperial da Rússia não é já tanto a NATO, os Estados Unidos ou a União Europeia: é também isso, porque é o Ocidente que está em causa, que Putin odeia e quer longe da Federação Russa, nem que para isso massacre populações indefesas e arrase cidades e aldeias. É conhecida a sua afirmação, ao Financial Times, que "a ideia liberal se tornou obsoleta e choca com os interesses da esmagadora maioria da população"; instado a comentar, o presidente do Conselho Europeu de então, o polaco Donald Tusk, não titubeou em "discordar fortemente" do líder russo, contrapondo que "aquilo que considero verdadeiramente obsoleto é o autoritarismo, o culto da personalidade e o poder dos oligarcas". Afinal, já o texto inicial de Hegel retratava "o solo da vontade despótica, casual e arbitrária", em que "o déspota leva a cabo as suas extravagâncias".
Todavia, testemunhamos hoje também que Ocidente não se confina à geografia, mas tem um sentido genuinamente político, englobando a liberdade e a democracia. Neste contexto, e alterando por completo a política económica nociva do seu antecessor, o inapto Trump, o Presidente Joe Biden acaba de promover, no início da reunião do grupo Quad, em Tóquio, a defesa de um Indo-Pacífico "livre, aberto, ligado, seguro e resiliente". Como veremos, podemos dizer também que "a História mundial viaja de Ocidente para Oriente"!
O autor não segue o denominado “acordo ortográfico”
Autor: Acílio Estanqueiro Rocha