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O Sínodo e o diálogo inter-religioso

O sínodo dos bispos, com um processo de dois anos, (desde 10.10.2021 até 10.10.2023), a realizar em três fases (diocesano, continental e mundial) tem por tema essencial: “por uma igreja sinodal: Comunhão, Participação e Missão”. Em crónica anterior, abordei “o Sínodo e o acesso da mulher ao diaconado”. Agora, é ocasião para abordar o tema em epígrafe, não menos importante na vida da Igreja. No cumprimento das normas aprovadas no Concílio Vaticano II (vg ,“Gaudium et Spes” sobre a Igreja no mundo, a “Nostra aetate” sobre as relações com as religiões não cristãs, a “Dignitatis humanae” sobre a liberdade religiosa e o decreto “Orientalium Eclesiarum” sobre as Igrejas Orientais católicas) os três últimos Papas dedicaram parte do seu apostolado ao diálogo inter-religioso. A propósito dos 50 amos do Concílio Vaticano II (1963-1965), Bento XVI convocou o sínodo dos Bispos, com apelo ao diálogo com não crentes, ao mesmo tempo que declarou o ano 2013 como o Ano da Fé, tendo como temas: debates entre os batizados, crentes de outras confissões e religiões, ateus e indiferentes. Mas já antes, João Paulo II havia iniciado gestos de grande alcance no campo inter-religioso, convocando para Assis (Itália), por duas vezes, todas as religiões para um encontro de oração pela paz no mundo. Foi ele o primeiro Papa a visitar uma sinagoga e uma mesquita. Bento XVI veio reforçar o diálogo inter-religioso com o mundo islâmico e judaico. Numa visita à Turquia, em finais de 2006, encontrou-se com os líderes muçulmanos, visitando também uma mesquita, em Istambul. Em Janeiro de 2011, declarou esse ano como ano mundial do diálogo intercultural e inter-religioso, cujo ponto alto ocorreu em setembro desse mesmo ano, com uma reunião dos representantes das várias confissões religiosas. Na viagem que efetuou ao Líbano, no mês de setembro de 2012, Bento XVI, além de pedir o “silêncio das armas” e o fim da violência no Médio Oriente, apelou ao respeito recíproco e diálogo contínuo, porque o Médio Oriente, segundo Bento XVI, “tem de perceber que os muçulmanos e os cristãos, o islão e o cristianismo podem viver juntos, sem ódio e no respeito pelas crenças de cada um”, apontando o Líbano como exemplo.   Embora não fazendo nenhuma reforma de fundo da Igreja, Bento XVI concentrou todo o seu pensamento no papel de “guia espiritual”, tentando fazer a conciliação “entre a fé e razão, política e justiça”. Por isso, pediu uma “fé clara” e uma discussão sobre os valores para afrontar as consequências da secularização da sociedade ocidental, que ele associa ao relativismo cultural dominante – uma sociedade em risco de perder os “códigos éticos”. O futuro encarregar-se-á de demonstrar a oportunidade e profundidade do seu pensamento. Por sua vez, o Papa Francisco encetou uma viagem ao Iraque, a primeira de um Papa a um país de maioria xiita, apresentando-se numa missão de peregrino da paz : “Venho como peregrino (...) para implorar ao Senhor perdão e reconciliação, depois de anos de guerra e terrorismo (...) e em missão como peregrino da paz”. E considerou o povo iraquiano “uma família de muçulmanos, judeus e cristãos”. Qualificou o líder religioso muçulmano, o Ayatola Al-Satani, com quem se encontrou, como o um “homem de Deus”. A visão destes três Papas demonstra que a Igreja não pode ser uma monarquia absolutista e vitalícia Neste momento, as opções parecem ser claras: ou se opta por uma rivalidade entre as religiões, choque de culturas e guerra das nações ou se opta pelo diálogo de culturas e paz entre as religiões, como pressuposto para a paz entre as nações. Importa, para isso, em vez de se erguer barreiras de ódio, de vingança e de inimizade, estabelecer pontes de diálogo, numa atitude de aproximação e de compreensão. E nesse diálogo, importa procurar convergências, respeitar diferenças e atenuar divergências, na linha do pensamento do Concílio Vaticano II (1963-1965), pois, não há paz mundial sem paz religiosa. PS - Atualmente existem, em preparação simultânea, com datas muito próximas umas das outras, várias iniciativas: Jornada Mundial da Juventude (2023), Sínodo da Igreja (2023), Jubileu (2025) e o X Encontro Mundial das Famílias (junho de 2022). Como muito bem refere o Frei Bento Domingues O.P, numa das suas crónicas de domingo, no jornal Público (27.02.22) “estas experiências em curso, por si mesmas, não se contradizem, nem se anulam, podem tornar-se todas formas de sinodalidade. O princípio básico defendido pelo Papa Francisco e pela Comissão Teológica Universal (CTI), já vem da Idade Média: o que diz respeito a todos deve ser tratado e aprovado por todos”.
Autor: Narciso Machado
DM

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9 março 2022