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O setor social e os relevantes serviços prestados no país

A pandemia de Covid-19 tem provocado sérios problemas às famílias, aos empresários, ao terceiro setor e à economia, assim como tem originado aproveitamento político, no sentido de cativar os cidadãos ao transmitir situações sedutoras, mas muitas vezes irrealizáveis.

A comunicação social serve-se muitas vezes das situações mais gravosas para dar grande impacto a determinados temas, tendo em vista alcançar entre si maior incidência audiovisual, uma vez que vão de encontro aos cidadãos menos preparados ou desconhecedores dos problemas. Dão preferência a temas polémicos, que em nada contribuem para consolidar a democracia plural, alcançada ao fim de várias décadas, e que podem contribuir para a sua destruição através de movimentos políticos fortemente extremistas.

A pandemia serviu para dar inicialmente grande impacto ao Norte do país, início de maior incidência, centrada na generalidade da população, transitando depois para Lisboa, o que era previsível devido aos bairros sociais e à aglomeração dos cidadãos nos transportes urbanos, e agora foca-se nos Lares de uma forma insistente e de culpa, o que se considera injusto e demonstrativo do desconhecimento das condições para que foram criados, da sua estrutura e do seu funcionamento.

Os Lares passaram a ser o centro de certa comunicação social, não só escrita, como audiovisual, com comentários e artigos inadequados, que demonstram tentar ignorar o envelhecimento demográfico que o país atravessa e os motivos que levam as famílias ou os cidadãos a recorrer aos lares, por vezes ali deixados ao abandono de proximidade e ausência de apoio familiar.

As características dos utentes dos Lares têm-se vindo a modificar nos últimos anos, não só devido a problemas familiares e ao trabalho conjunto dos filhos, mas também à insuficiência de camas hospitalares ou ao não seguimento do programado para os cuidados continuados integrados, por deficiente planeamento dos fundos comunitários do Portugal 2020 para novas unidades, assim como as comparticipações protocoladas se revelam insuficientes, provocando problemas no seu funcionamento. Porém, a maioria das dificuldades são vencidas com dedicação, abnegação e grande sentido de proximidade familiar, pela estrutura de recursos humanos, quando bem dimensionados ao seu fim, mas que podem ser pontualmente insuficientes na atualidade, e cada vez mais as famílias só recorrem a estas instituições quando os idosos já se encontram numa situação de fragilidade ou com problemas de origem psiquiátrica por não terem condições para assumirem os custos com cuidadores.

Neste contexto de pandemia, os Lares têm desempenhado um trabalho notável, como sempre o fizeram e em períodos de crise, quando oficializados e bem estruturados, dentro das IPSS, das Misericórdias, das Mutualistas e das Cooperativas.

Os diversos governos devem muito a estas estruturas sociais, quer através das diversas crises que o país atravessou, quer devido a problemas sanitários ou de insuficiência do apoio do SNS, as quais estão a ser vítimas de ataques inconcebíveis quando têm feito um trabalho notável nesta pandemia e os seus funcionários têm sido uns verdadeiros heróis.

Não se compreende a tomada de posição por certa comunicação social, ao ponto de considerarem os Lares “Depósitos de Idosos”, o que não corresponde à realidade e demonstra puro desconhecimento dos problemas que levam as famílias a estes recorrerem, por vezes com fracos recursos financeiros, assim como com as dificuldades que a maioria destas instituições têm para a sua sustentabilidade, quando não têm receitas provenientes das atividades sociais.

Por outro lado, é de salientar o trabalho de qualidade prestado pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social e por alguns Centros de Saúde em apoio, acompanhamento e fiscalização aos Lares face à Troika e consequente falta de investimento antes da pandemia em diversos governos e permitam-me salientar o trabalho desenvolvido ao longo de vários anos pelo ex-ministro José António Vieira da Silva, embora haja a considerar a insuficiência da comparticipação oficial protocolada, a ser revista com brevidade, pois a sustentabilidade para as Instituições que não têm outras receitas está a conduzir a situações de insolvência ou mesmo de encerramento.

Por outro lado, na estrutura política atual há partidos que querem tornar tudo público, dentro de um extremismo inconcebível e atacam o Terceiro Setor e as Instituições de Solidariedade Social, ignorando o grande contributo que deram aos governos e continuam a dar, dentro de um espírito solidário, pois a maioria dos dirigentes nas IPSS e nas Misericórdias prestam um trabalho voluntário, assumindo grandes responsabilidades e em espírito de dádiva e amor ao próximo.

É de salientar a reação face à polémica gerada em torno dos Lares por parte do Primeiro-ministro António Costa ao afirmar: “Não posso aceitar esta forma como têm vindo a ser crucificados na praça pública, de uma forma tão injusta aqueles que dão o melhor do ponto de vista solidário para responder às necessidades, seja das crianças, seja dos idosos e de todos aqueles que estão a cargo das instituições de solidariedade social”.

Será de toda a justiça salientar o bom trabalho de coordenação e acompanhamento realizado pela Delegação de Saúde e pelo Centro Distrital do Instituto da Segurança Social de Braga, apesar dos recursos humanos insuficientes para combater desde o início esta pandemia, com um poder decisor fortemente centralizado em Lisboa.


Autor: Bernardo Reis
DM

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25 agosto 2020