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O regresso da barbárie

Acredite caro leitor que escrever sobre a guerra que se desenrola na Ucrânia com a tentativa da Rússia em mudar o destino escolhido pelo povo ucraniano, é um tema que nunca desejei.

No entanto, a realidade sobrepõe-se à vontade e, nestes últimos dias, não há qualquer outro assunto que ultrapasse em importância a invasão russa a terras ucranianas.

Confesso que depois de ter visto, em novembro de 1989, a queda do Muro de Berlim e posteriormente a dissolução da União Soviética, julguei não mais vir a ter o pesadelo de testemunhar uma guerra na Europa.

Como estava enganado!

A chegada de Vladimir Putin à presidência da Rússia, em 1999, mudaria a direção dos ventos da história. Governando com mãos de ferro, manietando tudo e todos os que lhe pudessem atravessar no caminho e beneficiando de uma melhoria das condições económicas do seu país, o senhor da grande nação russa foi sedimentando o poder absoluto. O sonho e a ambição de vir a reconstituir o antigo império soviético têm-no feito seguir o caminho que culminou agora com a invasão da Ucrânia.

Contra todas as normas do direito internacional e ao arrepio dos mais elementares princípios de respeito pela soberania dos povos e dos direitos humanos, Vladimir Putin tem ignorado os apelos da grande maioria dos países do mundo, do seu próprio povo e teima em prosseguir a sua agressão.

Um pouco por todo o planeta sucedem-se manifestações de repúdio pela invasão e de solidariedade para com o povo ucraniano.

A comunidade internacional, em particular os países da NATO e da União Europeia, tem erguido a sua voz e tenta isolar a Rússia no sentido de a fazer recuar.

À hora a que escrevo este texto, o povo ucraniano continua a resistir ao invasor dando mostras de uma coragem ímpar e de um patriotismo exemplar. No entanto, as imagens de destruição e de sofrimento continuam a chocar as consciências mais frias e resistentes.

Que dizer dos muitos milhares de mulheres e crianças a fugirem do seu país em condições de enorme sacrifício e de grande vulnerabilidade? E da separação das famílias e dos rostos de medo dos mais pequenos?

Em pleno século XXI, onde a Humanidade alcançou níveis de conhecimento nunca antes conseguidos, estas imagens seriam bem dispensáveis.

Aqui chegados, o que esperar do futuro mais imediato?

Manifestando o desejo de que a via diplomática ponha fim a este conflito que pode incendiar o mundo, tenho esperança de que a racionalidade prevaleça no coração dos mais poderosos.

Acredito que nada ficará igual e que a globalização, como até agora a conhecemos, sofrerá retrocessos importantes.

A Europa terá de repensar o seu posicionamento em relação à Rússia, à China e às outras potências emergentes. Terá de deixar de vez uma certa ingenuidade pacifista e de rapidamente pôr fim à dependência em matérias de energia e de defesa que displicentemente descurou desde o fim da segunda guerra mundial, reinvestindo na industrialização e na autossuficiência alimentar.

Na Rússia, há que esperar que as elites ponham freio nas intenções mais maquiavélicas que possam emergir na cabeça de Vladimir Putin e que o seu povo contribua com a sua ação para a preservação da sã convivência e da paz entre os povos.

Não posso terminar sem felicitar a sintonia existente nesta matéria entre todos os nossos órgãos de soberania, nomeadamente Governo e Presidência da República e entre muitas outras instituições e partidos políticos, com a exceção conhecida do Partido Comunista Português.

Como homem de fé, acredito que este enorme pesadelo se dissipará e que voltaremos a ter tranquilidade. Tranquilidade a que só damos verdadeiro valor em momentos como o que agora vivemos.


Autor: J. M. Gonçalves de Oliveira
DM

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1 março 2022