Numa altura em que a Igreja se sobressalta com o que «mostra», é imperioso recordar o que – efectivamente – a Igreja «é».
Importa, pois, dizer bem alto que, embora nem sempre o «mostre», a Igreja «é» santa.
A Igreja «é» santa porque é o inteiro Corpo de Cristo (cf. 1Cor 12, 12-13).
A santidade vem-lhe da sua cabeça. Mas o pecado subsiste em muitos dos seus (outros) membros.
Porque é que os pecadores se mantêm na Igreja? Precisamente para vencer o pecado.
Conscientes de que por si nada alcançam (cf. Jo 15, 5), alenta-os saber que em Cristo tudo conseguirão (cf. Fil 4, 13).
Acontece que este não é um processo linear: envolve avanços e recuos, com muitas lutas e quedas, tentações, tentativas e constantes recomeços.
A Igreja nunca deixará de «ser» santa. Mas «com» pecadores.
Angel Antón percebeu que a Igreja «é uma “cópia” do original Cristo».
Só que é uma «cópia» nem sempre transparente. Muitas vezes, torna-se uma «cópia» tremida e embaciada, que mal deixa ver o «original Cristo».
Perguntar-se-á. Como é que o Corpo de Cristo pode estar «forrado» com um «tecido» tão grosseiro?
Sucede que nem o pecado dos seus membros impede que a cabeça derrame fluxos infindáveis de santidade. Com todas as fragilidades que a debilitam, a Igreja será sempre a «sala» em que o Pai celebra os esponsais do Seu Filho com a humanidade.
Todos são convidados já que, à partida, a Igreja não desiste de ninguém.
Como sinalizou Henri de Lubac, ela «não é uma academia de sábios, nem um cenáculo de intelectuais sublimes, nem uma assembleia de super-homens». Há toda uma «legião de medíocres que se sentem nela como em própria casa».
Neste mundo, ela será sempre «trigo misturado com palha» e «barca repleta de maus passageiros que parecem arrastá-la para o naufrágio».
Como rezava uma conhecida máxima de Santo Ambrósio, a Igreja é «imaculada, mas composta por maculados» («immaculata ex maculatis»).
Faz parte da sua natureza estar exposta, não lhe sendo permitido ocultar as suas fraquezas.
Há comportamentos que ela não aceita e atitudes com as quais não pode transigir.
A Igreja coexistirá sempre com o pecado, mas sem jamais lhe render vassalagem.
O perigo de cair nunca deixará de espreitar. E, no entanto, ela «é» santa!
Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira