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O paradigma da consciência vai revolucionar toda a educação.

Pablo D’Ors, sacerdote e escritor madrileno, de 59 anos, nomeado pelo Papa Francisco em 2015 para o Conselho Pontifício da Cultura, publicou, em 2014, um precioso livro de apenas 112 páginas: «Biografía del silencio» que já teve mais de 22 edições e vendeu mais de 100.000 exemplares. Nesse mesmo ano, fundou a Associação ‘Amigos do Deserto’, dedicada «a aprofundar e difundir a dimensão contemplativa da vida cristã». Em 2019, publicou outro livro: «O Amigo do Deserto» traduzido e publicado em português pela Quetzal. Os dois livros merecem uma leitura atenta e pausada. Numa das suas habituais colaborações para a revista «Vida Nueva», nº 3297, de 10-16 de dezembro 2022, publica um texto em que afirma estarmos perante um novo paradigma na vida espiritual e na própria educação. Dele extraio o essencial do que se segue e que, sem o citar explicitamente, o padre José Frazão enfatizou no retiro de final de janeiro a 32 sacerdotes da arquidiocese. «Meditar é uma peregrinação ao nosso centro». Esta afirmação pressupõe que nós estamos quase sempre descentrados, dispersos, fora de nós mesmos. Sobretudo hoje. «Meditar é a aventura do conhecimento de si próprio por meio do silêncio. Se não nos olharmos e não nos escutarmos, não nos poderemos conhecer. E se não nos conhecermos, não nos podemos amar, pois que ninguém ama o que não conhece. Se não nos amamos, não poderemos amar os outros, pois ninguém pode dar o que não tem». É difícil ser mais contundente nas afirmações, que ajudam, porém, a descobrir a causa mais profunda de tanta desorientação dos nossos dias, mesmo em quem tem por função primordial orientar e acompanhar espiritualmente os outros. Todas estas considerações querem reafirmar que é possível viver em paz. «Para viver em paz, medito todos os dias, muitas vezes ao dia. Se não soubesse parar e respirar, estaria doente, que é o que acontece à nossa sociedade em geral». A escusa das pessoas é a de que não têm tempo para meditar. «Mas tempo é precisamente o que há. Outra coisa é como o organizamos. Porque não é apenas o facto de a sociedade nos estimular em demasia, é que nós próprios ficamos muito nervosos quando ficamos a sós connosco. Na minha opinião, é desejável encontrar, não só um momento de respiração cada dia, mas vários. Muitos. E encontrá-los depende da hierarquia de valores que cada um tem». A argumentação é fortíssima: «Dizer que não se pode pedir a alguém que medite é como dizer que não se lhe pode pedir que pense ou que tenha vida interior. Mas é isso o que temos de pedir às pessoas, se queremos que haja pessoas e não robôs». Naturalmente que há que garantir a satisfação das necessidades físicas básicas, porque se estas não estão asseguradas minimamente, não podemos sonhar com o cultivo das necessidades psicológicas, e muito menos das espirituais. Para o ser humano, não basta o pão; precisa de pão e palavra. Com estas afirmações, Pablo D’Ors diz quer reafirmar que: «a meditação é, de alguma maneira, a nossa nova religião. Porque o que hoje se chama Consciência, -- o novo paradigma da realidade --, é o que sempre, nós os crentes, chamos Deus. Por isso, uma religião que não desemboque na espiritualidade, fica em mera cultura, no melhor dos casos. Normalmente, não passa de folclore». E é o perigo que se corre com uma prática rotineira da vida religiosa, como infelizmente tanto acontece. O autor interroga-se: «Se a educação física deve formar parte da educação das crianças e jovens, não deveria formar parte da formação escolar e universitária a educação espiritual?». Não se confunda espiritual com mágico, como fazem o materialismo e racionalismo dos nossos dias. «Dentro de poucas décadas, a meditação estará integrada na formação escolar. Mais: o paradigma da consciência vai revolucionar toda a educação». Já tinha antecipado isto na ‘Biografia do Silêncio’: «Se se olhar bem – e é nisso que educa a meditação – tudo é sempre novo e diferente» (p. 33). «Medito para que a minha vida seja meditação! Vivo para que a minha meditação seja vida!» (p. 41) O cónego João Aguiar exprime isso mesmo numa publicação no Facebook de 2 de Fevereiro: «… Tenho tanto para ver que vou fechar os olhos … De olhos fechados vejo e oiço melhor o que é: o caminho que acabo de pisar, o sabor do encontro começado e o voo poisado num ramo que acena. Também o futuro o vejo melhor de olhos fechados… Quando fecho os olhos para ver e ouvir, abrem-se cortinas e nada se desfoca ou destoa. Como se alguém me desse a mão e me levasse ao centro do suspiro primeiro e ao centro do passo onde tudo começou». Parece que quem aposta na meditação e no silêncio é uma ave rara. «Mas todos somos aves raras no contexto em que nos movemos, o que sucede é que … não o sabemos ou assusta-nos reconhecê-lo! Este caminho não é para que sejamos mais os que frequentam a Igreja, mas para que sejamos melhores: para sermos realmente quem somos. Sem silêncio, a palavra torna-se palavreado. O exterior não é fiável se não se renova o de dentro». Pegar na Cruz das Jornadas pode custar um bocadinho fisicamente, mas faz-se bem. Enfrentar a cruz da vida e olhar-se dentro de si, sem medo das mudanças que possa sugerir e implicar é que é o verdadeiro desafio a enfrentar todos os dias.
Autor: Carlos Nuno Vaz
DM

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4 fevereiro 2023