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O Mito de Kaase

Um estudo, apresentado na passada quinta-feira, veio confirmar o que já se sabia sobre a forma como os jovens entendem a sua participação em Democracia, concluindo que a fraca participação da juventude em atos eleitorais é contrabalançada por uma maior intervenção através de ações cívicas aliadas a causas e menos aos partidos.

Grosso modo, ficou-se a perceber, neste estudo, promovido pelo Fórum Gulbenkian Futuro em parceria com o Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica e em colaboração com as universidades do Minho, Aveiro, Lisboa e Porto, que a juventude tem encontrado formas alternativas de participação política não eleitoral, procurando, sobretudo, fugir de modelos de participação convencionais, nada cativantes e até desmotivadores.

As conclusões do trabalho não surpreendem e vem de encontro ao que o Movimento de Cidadania Contra a Indiferença tem dito sobre a organização política em Portugal e os desafios que os partidos têm pela frente se quiserem estagnar o seu acelerado envelhecimento.

Estamos perante estruturas partidárias hierarquizadas, campanhas eleitorais marcadas por temas que nada dizem aos mais jovens e, como sublinha o jornal Público, que divulgou o estudo, “modelos de participação mais convencionais” e por isso “menos desafiantes”.

Apesar dos partidos terem estruturadas de juventude, tal não espoleta particular interesse nos jovens. O estudo explica que estamos perante “estratégias de comunicação e de mobilização dos partidos inadequadas aos mais jovens”.

Um dos coordenadores do estudo, Pedro Magalhães, aponta o dedo às últimas eleições legislativas onde os temas dominantes foram os impostos e as pensões de reforma, adequados às faixas etárias mais velhas. Questões como a educação, a precaridade, a habitação ou o ambiente, ficaram de fora do debate.

Por outro lado, a relutância em integrarem estruturas convencionais e institucionalizadas e a má imagem dos partidos afastam os mais novos que preferem afastar-se para que as suas causas “não sejam contaminadas”.

O trabalho do Público não refere, mas é evidente que houve uma motivação acrescida nas eleitoras e nos eleitores nas eleições de 30 de janeiro, que levou às urnas mais 400 mil pessoas e nessa demanda há muito voto jovem, seja pela experiência de ser a primeira vez que tinham o direito a exercer o voto, seja pelo confronto das opções que se apresentaram ao eleitorado.

A “urgência” que os jovens põem na resolução dos problemas é incompatível com a estratégia dos decisores político-partidários, sempre mais lenta e obediente a uma visão hierarquizada. Acrescentava, aqui, o facto de os partidos continuarem fechados sobre si próprios, ao invés de serem espaços abertos ao diálogo e à procura de soluções duradouras para os seus problemas.

O investigador em causa aponta, igualmente, para a falta de representatividade da juventude no Parlamento onde a média de idades é de 48 anos, propondo, como alternativa, o uso de quotas para a integração de jovens em lugares elegíveis.

A par desta constatação, o politólogo evoca o seu congénere alemão, Max Kaase para nos confrontar com a sua ideia da “Revolução participativa”, dado que os jovens encontraram formas alternativas de participação política e isso é visível nas iniciativas que desenvolvem, seja na recolha de fundos, no boicote, ou na compra de produtos, ou na assinatura de petições.

Uma das conclusões que se pode tirar é que o palco para as suas manifestações de interesse passou para as redes sociais onde discutem e partilham “conteúdos políticos”. Estamos perante um mito desfeito por Kaase que, assim, arrasa a ideia sobre “sobre a morte da política entre os jovens”. Aos mais desatentos, vale apena apontar o dedo para o que é hoje a tendência em toda a Europa e aquela que será a próxima revolução vinculativa: o fortalecimento da “Democracia participativa”, onde será predominante a ação em contraponto ao modelo cristalizado em vigor.

Por outro lado, a guerra que passou a fazer parte do léxico de todos nós, teve o efeito mais rápido e inesperado: perante o horror de uma devastação provocada por um autocrata e cleptocrata, se quiserem, a Democracia ganhou notoriedade, e com isso, talvez tenhamos ganho todos consciência dos seus valores fundamentais para a Paz e para o futuro da humanidade.


Autor: Paulo Sousa
DM

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13 março 2022