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O Lago dos Cisnes

Nunca a palavra censura – em quase 50 anos de Democracia – mereceu tanta preocupação como aquela que nos tolhe o espírito crítico por estes dias e nunca, como agora, se torna necessário avaliar com o necessário equilíbrio o que se está a passar com a nossa vocação para apontarmos as armas aos que não se podem defender, aos que simplesmente utilizam a Cultura como expressão máxima da identidade de um povo, neste caso a Rússia.

Leio com preocupação, a catadupa de notícias de cancelamento de espetáculos de música, apresentação de livros e um sem número de iniciativas programadas por cá e em toda a Europa e pergunto-me: com que direito, com que moral, com que Liberdade estamos a censurar a comunidade russa que vive entre nós ou que provinda desse grande país, está impedida de difundir a sua música, o seu teatro, os seus livros? A onda de solidariedade para com o povo ucraniano, não nos deve desequilibrar os sentimentos, nem permitir julgar com tanta facilidade os que simplesmente, tal como os ucranianos, são vítimas da hipérbole fascizante de um regime. É nesta altura que me questiono se não estou a ser alvo de censura por me coartarem o direito de assistir à exibição do filme de Andrei Tarkovski tão bem lembrado por Tiago Alves Costa num post do Facebook: “pelo facto de ser russo só mostrou o perigoso caminho para o qual a humanidade se encaminha”. Assino por baixo, enquanto me recordo das aulas de russo que tive no início da década de 90, do século passado, numa pequena sala, do Centro Comercial do Rechicho, em Braga. Era tudo estranho, menos a professora, uma cidadã russa radicada no Minho, a dar os primeiros passos para a divulgação da língua e cultura russa. Não tive o êxito desejado, mais por culpa própria, mas retive na memória, a bondade e a paciência da professora, tolerante com as constantes faltas às aulas, por questões de trabalho. Vem-me à memória, o primeiro restaurante russo, instalado no bairro das Enguardas, na mesma cidade, ou as mercearias com produtos russas que, calculo, ainda estejam abertas e logo sou confrontado com o título do Jornal I: “restaurante russo apaga vestígios”. Segue-se a explicação: “A Tapadinha era um clássico de Lisboa. Devido à pressão mediática da guerra apagou todas as referências russas. Agora os empregados ucranianos correm o risco de ficar sem emprego”. Vítimas: os ucranianos com quem somos solidários e os russos que escolheram o nosso país para viverem. É também por estes dias que leio notícias de que a comunidade russa em Portugal se queixa de estar a ser perseguida com insultos e censura como se habitassem na órbita de Putin e pergunto-me onde está a nossa capacidade para distinguir o trigo do joio e caio novamente nas palavras do meu irmão, José Miguel Braga, num olhar perplexo e crítico sobre a dita censura: “Li há pouco que um filme russo foi excluído da programação de um conhecido festival do nosso Portugal. Santa Maria! Qualquer dia entram-me pela porta dentro a querer apreender Dostoievski, Gógol e uns quantos mais. Atiro-lhes com o meu exército de mochos e corujas e logo se levanta “Orlando Furioso” e lá vem o CID, o nosso grande Campeador. Foi nessa altura que peguei na moca sagrada, aquela que o presidente da Junta me ofereceu, quando fizemos o “Auto da Senhora dos Milagres”. Foi realmente um morticínio de imbecis. Para além do mais, retirar uma obra de arte de um festival é um propósito xenófobo de grau muito elevado. Como um tumor”. Perante esta soberba que inunda e confunde, só me apetece, a fechar esta crónica, lembrar que o canal de televisão russo TV Rain foi um dos meios de comunicação social que Putin restringiu a propósito da cobertura da invasão à Ucrânia. Na passada quinta-feira, a equipa da estação demitiu-se numa emissão ao vivo com as palavras “Não à guerra”. Dizem os jornais que a equipa deixou no ar, de forma ininterrupta, o som do icónico bailado, “O Lago dos Cisnes” no que foi um ato simbólico. A notícia termina, lembrando que foi o bailado que todos os canais de televisão russos transmitiram quando a União Soviética estava a colapsar. Mais tarde ou mais cedo, esperando que não seja tarde, a Rússia fará o seu caminho com o seu povo e a sua cultura, em Liberdade. Um simples desejo que me recorda outro; o primeiro escrito que publiquei em Junho de 1978, no jornal Correio do Minho, com um desejo: “acabaram-se os séculos tristes e marcados/acabaram-se os séculos da ingratidão/como fortes blocos dissipados”. Assim seja.


Autor: Paulo Sousa
DM

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6 março 2022