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O Hino Nacional do país de Ferrão e Portela

1 - A “Antena 1” da RDP e o seu novo e barulhento “jingle”). Desde há meses usado como “separador” de assuntos, uma nova e incomodativa “pseudo-melodia eletrónica” vem sendo usada pela rádio do Estado, deseducando (como nunca) os gostos musicais dos ouvintes. Ao contrário do que é sua obrigação. E é essa agressão à Arte e ao ouvido dos portugueses que me motiva a escrever o texto que se segue.

2 - O verdadeiro “Strauss português”, Raul Ferrão). O fado e as marchas populares estarão para Lisboa, tal como, para Viena de Áustria estão as famosas valsas. Ambas são um produto da cultura popular que meia-dúzia de artistas extraordinários elevaram ao patamar da imortalidade. Quanto à valsa vienense, os principais compositores terão sido Johann Strauss (o pai, 1804-49) e seus filhos Johann (1825-99), Josef (1827-70) e Edouard (1835-1916), além de alguns outros, menos conhecidos (Ziehrer, Schrammel, Lanner, Fahrbach, Millöcker, Czibulka, etc.).

No caso dos fados e marchas populares do séc. XX lisboeta, criadores houve também de grande mérito: Raul Portela (1889-1942), Belo Marques, Frederico de Freitas, Alves Coelho, Jaime Mendes, João Nobre, entre outros. E sobretudo no que respeita às marchas populares, destaquemos contudo a pessoa de Raul Ferrão (1890-1953), criador de centenas de composições de ambos os géneros, boa parte das quais dormita, esquecida, nos fabulosos arquivos da S. P. A., ignorados (para sempre?) da esmagadora maioria dos portugueses.

3 - Ferrão nem sequer era muito afecto ao Regime). Por ironia, contudo, muito da sua obra se tornou emblemático daquele “pathos”, para tantos saudoso, da parte boa do Salazarismo. Era filho de militar e estudou no Real Colégio Militar e na Escola do Exército (mais tarde foi também engenheiro químico, pelo Inst. Sup. Técnico). Já casado, partiu em 1914, voluntário para Angola, donde regressou doente das febres.

Em 17, evitou a recruta para a Flandres, por força de um grave acidente de automóvel. Foi sua 1.ª esposa, Lydia Esperança da Silva Azinhais, que lhe ensinou a técnica musical. E desde os anos 20 tornou-se rapidamente (sem deixar a carreira militar) um renomado compositor de músicas para teatro de revista, operetas, filmes e fado. O novo Regime vai transferi-lo para Trás os Montes, longe do ambiente musical lisboeta. É nessa altura que pede a passagem à reserva, com o posto de tenente-coronel.

Haveria de casar uma 2.ª vez e viria a falecer de cancro pulmonar a 30 de Abril de 53 (por acaso, dia de aniversário do meu pai). Ferrão era o mais velho de 6 irmãos. E foi pai do conhecido realizador da RTP, Ruy Ferrão, amigo mais velho de Fialho Gouveia, Carlos Cruz e Raul Solnado.

4 - Alguns dos seus muitos êxitos). Como disse atrás, a sua obra é vasta e está meio- escondida. Há, contudo, p. ex., um CD da grande Beatriz Costa (editado pela EMI-Valentim de Carvalho-Caravela) em 1977 e 96, intitulado “Grande Marcha de Lisboa”, o qual inclui 12 marchas, quase todas de R. Ferrão. Entre elas, a “marcha de Alfama”; a “m. da Mouraria”; o famoso “Balãozinho”; e o não menos famoso “Fado do 17” (os dois últimos, com R. Portela).

Mas há mais: “Cantarinhas”(1923); “O cochicho” (1932); “A carta do soldado”(1942); “Velha tendinha” (1934);” Fado das Caldas”; “Velho Friagem”; “Arre burro”; “Maria Papoila”; “Rosa enjeitada”; o solene “Ó Madragoa”; o “Adeus”; o “Saloia da Malveira”; o “Solidó dos boleeiros”; “Lisboa, não sejas francesa”; “Coimbra”; “F. do marinheiro”; o famoso “Fado do 31” (com Alves Coelho), etc..

5 - Comparando o actual Hino Nacional com outros). “A Portuguesa” (com letra de H. L. Mendonça e mús. de Alfredo Keil) foi escrita a propósito do Ultimato inglês (1890) e adoptada pela República em 1910; substituia o Hino da Carta (1826) e o não oficial “Mª da Fonte” (ou H. do Minho) de Angelo Frondoni (1846). Boa parte da sua letra (“nobre povo, nação imortal, levantai de novo o esplendor de Portugal, a voz dos egrégios avós”, etc.) está hoje ainda muito actual. A melodia é que é algo falha de inspiração e composta por secções algo desconexas, de que, só o hábito nos faz não nos apercebermos.

Sobretudo se comparado à grandiosidade (e complexidade musical…) da melodia do mais belo dos hinos, o do Brasil ( aliás, sobre versos eruditos e ultra-românticos). Ou com o 2º mais belo, o da Itália (“Fratelli d' Italia”). Ou com o 3º, “La Marseillaise”, de Rouget de L' Isle.(França). Ou com o 4º, que é o da vizinha Espanha. Ou o 5º (bem curto), que é o de Marrocos. Ou o 6º, o britânico. Tudo na minha opinião, é claro.

6 - Um dia, alguma marcha de Ferrão ou de Portela nos servirá de Hino). Com este propósito, remeto para o CD mencionado acima, no cap. IV, na voz de Beatriz Costa. E selecciono 3 marchas: duas de Ferrão e Portela; e uma de Ferrão. Esta última é a inspirada “Marcha de Alfama”, (com os célebres versos “no alto mar fomos nós sempre os primeiros”). Cadenciada, grandiosa, melodiosa e alegre é a 2.ª opção, a “Marcha de S. Vicente” (com dupla autoria), também facilmente adaptável ao estilo militar. A 3.ª opção é ao mesmo tempo jocosa, melodiosa, tenaz, elevada, poderosa: é o célebre “Balãozinho”, bem adaptável também ao estilo militar, tão caro a Ferrão; na condição de se eliminarem talvez os seus 1ºs acordes. E bem entendido, só as músicas se podem aproveitar, não as letras.


Autor: Eduardo Tomás Alves
DM

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6 fevereiro 2018