twitter

O Evangelho na contraluz da pandemia e a pandemia à luz do Evangelho!

Como é sabido, a Quaresma começa com a TENTAÇÃO e reclama permanentemente ATENÇÃO.

As narrações da tentação (cf. Mc 1, 13) constituem, com efeito, um alerta que convoca a nossa contínua atenção.

Nada mais pertinente para acomodar a situação que estamos a viver.

À primeira vista, parece que olhamos para o Evangelho condicionados pela obscuridade da pandemia. O fundamental, contudo, é que não nos eximamos a olhar para a pandemia iluminados pelo Evangelho.

É certo que nos sentimos condicionados: nos passos, nas atitudes, nas decisões, nos gestos. É como se estivéssemos tolhidos por um pastoso manto de obscuridade.

Daí a urgência de nos vermos iluminados: na escuta, no cuidado, no arrojo. Apesar de tudo, não estamos impedidos de nos abastecermos com infindáveis correntes de luz.

Não é o Evangelho que tem de estar submetido à obscuridade da pandemia. É a pandemia que há-de ser projectada com a luz do Evangelho.

Entre a obscuridade dos tempos e a luz do Evangelho, por vezes a fronteira é estreita e os dramas aparentam ser intransponíveis.

Só que a «heterodoxia» de Jesus é assombrosa. Jesus é o Deus próximo, o Deus compadecido, o Deus que estende a mão, o Deus que abraça, o Deus-abraço.

Em Jesus, Deus não age à distância. Jesus é o Deus totalmente «desconfinado».

É por isso que, sem descuidar a prudência, é imperioso cuidar de agilizar alguma audácia e profecia.

Não coloquemos deliberadamente ninguém em perigo de contágio. Mas também não atiremos intencionalmente alguém para o risco do abandono.

A ATENÇÃO tem de vencer o impulso da TENTAÇÃO. A atenção ao(s) outro(s) terá de ser mais forte que a tentação da indiferença pelo(s) outro(s).

O Papa Francisco propõe uma terapia relacional. Ela pode passar por «palavras de incentivo, que reconfortam, consolam, fortalecem, estimulam, em vez de palavras que humilham, angustiam, irritam, desprezam».

Às vezes, basta ser «uma pessoa amável, que deixa de lado as suas preocupações e urgências para prestar atenção, oferecer um sorriso, dizer uma palavra de estímulo, no meio de tanta indiferença».

Em Jesus Cristo – prossegue o Santo Padre – «somos testemunhas do tempo novo em que Deus renova todas as coisas (cf.Ap21, 1-6)».

Nem sequer é preciso ser muito loquaz. Basta ser evangelicamente audaz, mobilizando até mais os ouvidos do que os lábios.

São necessários muitos ouvidos para acolher o que há para sair de tantos (sofridos) lábios.

Este não é, pois, um tempo inactivo. Esta é uma oportunidade para levar o Evangelho de forma alternativa.

Mas sempre com toda a sua luz. E sem receios ou constrangimentos «ego-medrosos»!


Autor: Pe. João António Pinheiro Teixeira
DM

DM

2 março 2021