twitter

O Estado da União e o iminente risco de desunião

Esta quarta-feira, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, dirigiu-se ao mundo para mais um discurso do Estado da União. Um discurso muito mais sobre o futuro imediato do que sobre o balanço dos últimos 12 meses. Da gestão da pandemia COVID-19 à guerra na Ucrânia, do aumento dos custos de vida à dependência energética europeia, o último ano veio demonstrar o que há muito tempo se tem dito da União Europeia: a consequência de um conjunto sucessivo de inações culminou na necessidade de aplicação de vários pensos rápidos, na esperança de que estes resolvam em meses o que não se preparou em anos. Ao longo das últimas décadas, sobretudo acentuada na última, e excluindo o momento em que Mario Draghi decidiu salvar o euro, foram raras as vezes em que a UE enveredou por caminhos firmes e renovadores. Foi assim nos temas de alargamento da União, nas políticas energéticas ante a Rússia ou comerciais ante a China, nas sucessivas indecisões sobre questões migratórias ou até na dimensão sanções a aplicar a Estados-Membro capazes de cumprir com o Estado de Direito. Assim o é, e assim o será, sempre que subsista a incapacidade de os Estados-Membros concordarem na efetiva necessidade de reforço dos poderes europeus. A Europa encontra-se, hoje, no final da encruzilhada que criou com essas sucessivas indecisões e confrontar-se-á, já nos próximos meses, com decisões muito difíceis. A primeira, está claro, sobre a manutenção de um apoio inequívoco à Ucrânia. Este será o primeiro teste à resiliência dos povos e ficará espelhado na opinião pública em cada eleição nacional que aconteça enquanto a guerra dure, sendo que os indicadores não são animadores. Não o são na Suécia, não o são na Itália, não o são na Bulgária e veremos ainda o que se passará na República Checa face aos insustentáveis aumentos dos preços da energia. O segundo, também externo, face à postura e às relações políticas com a República Popular da China. E esta, sim, uma das decisões mais difíceis e determinantes para o futuro dos mais de 400 milhões de europeus. À medida que o tempo passa e que as relações entre os Estados Unidos da América e a República Popular da China se agravam, com trocas sistemáticas de razões entre ambos os países, com especial foco para a questão da ilha de Taiwan, mais insustentável se torna a posição de indefinição da União Europeia. É que, se por um lado, a UE afirma e reafirma o princípio de uma China una, por outro vê com desconfiança o papel que os chineses têm tomado em particular na questão da guerra na Ucrânia em benefício próprio. O terceiro, e provavelmente o mais urgente, será a forma como a União Europeia reavaliará a sua reforma económica para fazer face aos investimentos necessários na era pós-pandémica e bélica. O grande desafio da União reside, assim, na diminuição das suas dependências a partir de incentivo à produção e consumos internos, desde logo no que toca à energia. Só uma União capaz de contentar os seus povos, de garantir uma qualidade de vida e um conjunto de garantias e liberdades a que a maioria das pessoas estão habituadas poderá, a curto prazo, ter ferramentas e apoio popular para atravessar mais um capítulo negro da sua História. Há, naturalmente, outros grandes objetivos que a EU não deve descuidar – da igualdade de género à estratégia para reconstrução da Ucrânia, da defesa do Estado de Direito à reorganização de políticas anti pobreza, da abolição dos direitos de veto à harmonização fiscal –, mas esses parecerão, sempre, muito insuficientes para o que qualquer europeu quer ouvir no imediato. Neste ano da União, para evitar uma Desunião Europeia, precisamos de uma Presidente determinada, convicta e inspiradora. O preço a pagar pela falta de visão será muito mais caro do que qualquer inflação.
Autor: Bruno Gonçalves
DM

DM

15 setembro 2022