twitter

O dever de fazer qualquer coisinha

A actividade política é nobre, como alguns defendem, se não for de mentira e dissimulação e não fizer de nós cúmplices e ignorantes do que se passa na sociedade. Infelizmente, as coisas acontecem e os responsáveis do país mentem, desresponsabilizam-se e não tomam medidas capazes. Todos os anos criticamos o Governo, qualquer que ele seja, pelos incêndios que ocorrem no país. Quase nos repetindo no discurso, mas sempre com pertinência. Na verdade, nenhum tem feito o suficiente para debelar, até ao mínimo, o flagelo da destruição de floresta e outros bens pelo fogo. Todos se defendem com isto e com aquilo para diminuir a responsabilidade que têm no cartório, mas sem que ninguém, a não ser os próprios responsáveis governativos, compreenda o pouco que tem sido feito em prol da preservação e segurança de pessoas e bens nas aldeias e vilas de Portugal no que à natureza diz respeito.

Com os governos de António Costa, o raciocínio dos detentores da pasta da Administração Interna chega a ser fabuloso nos vários sentidos do termo. De fábula, invenção, ficção, de algo extraordinário, grandioso, incrível, tudo é possível na argumentação política. Este ano já ardeu três vezes mais área do que em 2021 e a mesma responsável que acha que o SIRESP funciona bem e que as falhas, quando as há, são fruto do deficiente manuseamento do mecanismo, disse há dias que estava previsto arder mais área este ano do que já ardeu! Por seu lado, o ministro anunciou na última sexta-feira, a contratação de 500 bombeiros. É que, se a medida tem a ver com a previsão da secretária de Estado, a mesma chega tarde, demasiado tarde. Não se contratam bombeiros quando os incêndios lavram o país de lés-a-lés, mas muito antes, no mínimo, quando se faz o planeamento para a época seguinte. Contudo, no dizer de bombeiros e associações, a medida é “falaciosa”, por significar a regularização de bombeiros já em exercício e não um real reforço de efectivos, o que, a ser assim, confirma o tipo de raciocínio fabuloso engendrado nos gabinetes dos sucessivos responsáveis pela tutela das forças de combate aos fogos. É o cúmulo da desfaçatez!

Há incêndios a deflagrar de madrugada, áreas ardidas de paisagem protegida sem precedentes, certezas de falta de meios e de descoordenação e o Governo diz que podia ser pior? Costa e a classe política em geral sabem que basta cair uma chuvinha para fazer esquecer na opinião pública a calamidade que têm sido os milhares de incêndios em Portugal, circunstância que leva tantas vezes a comunicação social a mudar de tema e a contribuir, ainda que inconscientemente, para o branqueamento da inacção do Governo.

A falar sozinhos e desesperados, os pequenos proprietários ficam, num ápice, sem as poupanças e o investimento de uma vida inteira de canseiras e trabalhos. Quanto do que acontece não é resultado de incumprimentos por parte do Estado?! Muitas vezes os governos obrigam, produzindo uma lei, mas não passa disso. Pior, não se obrigam e nem se responsabilizam. Em ocasiões como a que se vive por estes dias de altas temperaturas, mas não só, os proprietários que ficaram com os seus bens em cinza pedem que o Governo faça qualquer coisinha, o que seria razoável, embora fosse bom que fizesse o necessário. Infelizmente, à primeira chuva que venha para ficar por uns tempos, o assunto vai dar-se por extinto, tal qual acontece quando os soldados da paz apaziguam as labaredas que transformam os horizontes verdejantes em cenários cinzentos e negros.

Cada um de nós integra o grande grupo dos interessados na solução dos incêndios, mas muitos olhamos mais para o benefício da chuva que ajuda a fazer o rescaldo dum fogo do que para a incompetência e irresponsabilidade dos nossos governantes. Enquanto isso, a floresta e o património de tantas família consomem-se. E achamos, de acordo com o posicionamento partidário que vamos tendo, que não têm fundamento as críticas que se fazem ao Governo quando o nosso partido é o que protagoniza a governação. Mal! O dever de fazer qualquer coisinha merece, da parte de todos, outra atitude.


Autor: Luís Martins
DM

DM

23 agosto 2022